A FELICIDADE SAI DO BAÚ E VAI PARA A CONSTITUIÇÃO

Originalmente publicado em 17/11/2010 01:23

Todos os dias, embora involuntariamente, o telejornalismo mostra que, quando o poder público ameaça o cidadão com os rigores da lei, não é preciso acreditar tanto assim. Veja-se a Lei Seca e a Lei da Cadeirinha. Os problemas ocorridos durante a aplicação do Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem, são a mais recente prova de que não se deve levar tão a sério as palavras institucionais. Às vésperas da aplicação das provas, autoridades do Ministério da Educação, sisudas e seríssimas, anunciaram, via imprensa, que as regras seriam duríssimas, para garantir a segurança, a tranqüilidade e o sigilo do processo seletivo. Em nome da seriedade e do rigor do exame, os candidatos foram proibidos de usar lápis (mesmo para rascunho) e relógio.

Já no comecinho das provas, viu-se, pelas redes sociais, que o mesmo rigor que garantiu a proibição de perigosíssimos objetos de risco como o lápis e o relógio, foi molinho e complacente com a entrada (e o uso) de celulares, através dos quais alguns candidatos tuitaram, mandaram torpedos e, diz-se, chegaram até a enviar o tema da redação para jornalistas. As confusões estavam apenas começando, mas, de novo, as briosas autoridades públicas responsáveis pela aplicação do exame postaram ameaças nas redes sociais: os candidatos que ‘tuitaram’ e enviaram torpedos durante o exame estavam sendo monitorados e seriam punidos. E foram, através da exclusão da lista dos que realizaram as provas. À pergunta da imprensa quanto à contradição entre a proibição do uso de lápis e relógio e a paradoxal permissão da entrada de candidatos com celular, a resposta foi óbvia, claro: como o MEC iria proibir entrada de celular se não seria possível dotar os locais de provas com detector de metal? Como se sabe, detectores são coisas impossíveis neste país. Veja-se as cadeias: se os presos podem comandar o crime de dentro delas, pelo celular, como as pessoas podem querer que o MEC proíba a entrada de candidatos nos locais de prova portando-os? Brasileiro não perde a mania de querer coisas impossíveis.

SUCESSO ABSOLUTO – Sem lápis e relógio, mas com celular, o fato é que, pelo segundo ano consecutivo, os problemas ocorridos durante a aplicação das provas deram o tom do Enem, gerando desgaste para o Governo, o Ministério da Educação e, sobretudo, dando farta munição a uma oposição ainda beligerante e ressentida até a medula por conta da insatisfação com o resultado recém-saído das urnas. Como se sabe, o ministro da Educação, Fernando Haddad, é um dos mais queridinhos do Governo Lula e, a essa altura, se um fio de cabelo torna-se uma peruca maldita inteira, imagine-se um rombo de imagem como este causado pela apreensão e insegurança em quase 3 milhões e meio de candidatos inscritos em um processo seletivo público e nacional. Mas, verdade seja dita, a culpa pelos estragos na imagem do Enem não foi da proibição do lápis e nem desse objeto hoje porta voz da felicidade e das desgraças do mundo, o celular. O estrago foi feito por falhas técnicas ocorridas na impressão das provas e dos cartões de respostas na gráfica.

Diante do problemão, o presidente Lula lançou mão de falas típicas da sua natureza, a de, inicialmente, negar o estrago. Mesmo com alguns milhares de cartões de respostas impressos de modo invertido, páginas de milhares de provas do caderno amarelo sem questões ou com erro de impressão, com professores jurando aqui, ali e acolá que houve questões mal elaboradas, sem repostas possíveis e com erros ortográficos, com a Justiça Federal anunciando o cancelamento das provas realizadas e proibindo até mesmo a divulgação do gabarito, a frase presidencial sobre a prova já é um clássico: ‘foi um sucesso absoluto’. Três dias depois, em Moçambique, após pensar três vezes, o presidente já admitia a possibilidade de, para assegurar a legitimidade do processo, cancelar as provas e aplicar outras. De qualquer modo, o estrago foi feito, a munição está dada e a proibição do uso de lápis para fazer rascunho de uma prova defeituosa tornou-se risível.

O BAÚ E JOÃO DURVAL – Mas, enquanto algumas instituições no Brasil dão motivos para que a população desconfie de seus rigores, já que elas mesmas não os têm, não deixa de ser um alívio que existam outras preocupadíssimas com o bem estar e a felicidade geral dos brasileiros. No apagar das luzes dessa legislatura, o Senado acaba de colocar na agenda de votação uma lei que vai revolucionar, para melhor, a vida de todo e qualquer brasileiro. A Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou projeto de emenda constitucional, de autoria do senador Cristovam Buarque, introduzindo (para que verbo melhor?) na Constituição Brasileira o ‘direito à felicidade’. Nada mais de ‘nóis sofre, mais nóis goza’. Agora, a felicidade dos brasileiros virá por decreto, concedida pelos senadores.

A ideia deverá ser aprovada logo e por unanimidade. Afinal, quem seria doido de ser contra a felicidade geral da nação? Sim, o senador baiano João Durval Carneiro, por exemplo, o pai do prefeito de Salvador, vai ter a oportunidade de, com o seu voto, redimir-se um tantinho com os insatisfeitos com a gestão do filho. No Senado, vai assegurar o direito de todos os baianos à felicidade, independentemente das esperneadas dos sudestinos, como Mayara Petrusco, a mocinha paulista para quem todos os nordestinos devem morrer afogados para fazer São Paulo feliz. O que não foi justo, no entanto, foi o fato de a felicidade constitucional ter sido anunciada nos telejornais no mesmo dia em que o telespectador foi torpedeado por uma notícia trágica: o Baú da Felicidade está com um rombo fenomenal, milionário. Logo, agora, que todos terão direito à felicidade, o país corre o risco de ser privado do sorriso de Sílvio Santos…

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado em 14 de Novembro de 2010 no jornal A Tarde, Salvador/BA. maluzes@gmail.com

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