Cangaço urbano

Publicação Original 06/12/2010 11:50
Entre as centenas de horas de imagens armazenadas nos centros de documentação das emissoras de televisão, gravadas durante a cobertura da guerra nos morros do Rio, uma, em especial, chamou a atenção: dezenas de ‘soldados do tráfico’ fugindo em bando, pelo mato, em desabalada carreira, como diriam vetustos escritores, no cume do morro da Vila Cruzeiro em direção ao Complexo do Alemão. Alguns só de bermudas, outros descalços, mas todos armados até os dentes com fuzis e outras peças de grosso calibre, muitas delas de uso ‘exclusivo’ das Forças Armadas, como a imprensa adora repetir.

A certa altura, enquanto uns caíam atingidos por tiros, dezenas de outros eram colhidos por uma potente pick-up preta que, saberia-se depois, era blindada. Era também roubada e clonada, avaliada em mais de R$ 100 mil, antes da blindagem. A imagem, pela natureza da cena e pela quantidade de homens, é uma das melhores traduções do paradoxo que é o Brasil. O país do Pré-Sal e dos aviões ultramodernos da Embraer é o mesmo que produz milhares de cangaceiros urbanos dispostos a tudo em nome do tráfico e a mais ainda em nome da mera sobrevivência, a qualquer custo, ao cerco do Estado, na primeira vez em que este se dá nessa escala e com esse propósito, o de retirar dos traficantes não apenas as drogas e as armas, mas o território geográfico.

LAMPIÃO – As cenas, transmitidas ao vivo para todo o país, registradas por cinegrafistas que sobrevoavam o local em helicópteros de emissoras de TV, remetiam não a uma sequência real e involuntária de Tropa de Elite, o filme, o Tropa 3, como se ironiza na imprensa classificando a própria ocupação do morro e a cobertura televisiva. As imagens remetiam de modo mais aproximado a uma espécie de releitura televisual e atualizada, em novo cenário, do bando de Lampião e seus cangaceiros em fuga no sertão brasileiro, perseguidos pela ‘volante’, como os policiais que os caçaram, mataram e cortaram suas cabeças como provas e troféus eram então chamados. Durante décadas, as cabeças dos cangaceiros ficaram expostas no Museu do Instituto de Medicina Legal Nina Rodrigues, em Salvador. Sob o aspecto físico, os soldados do tráfico em fuga assemelhavam-se aos fanáticos religiosos dos Sertões de Canudos: maltrapilhos, magricelas, andrajosos, analfabetos, banguelas, quase não-gente, no contexto de uma sociedade que se quer civilizada.

Diferentemente dos homens do bando de Lampião e dos fanáticos de Conselheiro, que nunca puderam contar com a clemência do braço armado do Estado, o cangaço urbano do Complexo do Alemão, um aglomerado de 17 favelas habitadas por 400 mil pessoas (praticamente uma população do tamanho da de Florianópolis (SC), conforme ressaltou o Jornal da Band de quarta-feira), onde todos os números e dados são hiperbólicos, pode ser considerado privilegiado. Sim, pois embora a quantidade de drogas apreendida, de armas, de motos e carros roubados e de presos seja de arregalar os olhos, sabe-se que a maioria dos traficantes, sobretudo os líderes, escaparam do cerco. Seja fugindo pelo mato, escondendo-se na casa de moradores ou fugindo pelos canais subterrâneos de esgoto, o bom senso recomenda aos telespectadores acreditarem que a maioria dos fugitivos contou mesmo foi com a ajuda que sempre teve da chamada banda podre da Polícia.

TRUTA – Não são poucas as denúncias de que dezenas de traficantes fugiram corrompendo policiais com quilos e quilos de barras de ouro. Como traficante não pode ter conta em banco e nem tampouco fazer depósito em caderneta de poupança, uma forma de aplicar o dinheiro e garantir a reserva e o acúmulo de recursos é através da compra de ouro, sob a forma de jóias vistosas para usar ou, principalmente, de barras do metal. Nas duas formas, a moeda ouro é chamada de “truta”. Moradores de favelas e bairros periféricos de outras áreas do Rio, a anos luz de distância do morro do Alemão, informaram à imprensa que assistiram, em diferentes pontos da cidade, ao desembarque de legiões de traficantes imundos, enlameados, seminus, descalços, exaustos e famintos que desembarcavam de kombis e utilitários, sendo recebidos por homens (supostamente policiais ou milicianos) que os esperavam com carregamentos de quentinhas no fundo de carros. A fuga, o transporte, a recepção e a comida seriam resultado da entrega de muita ‘truta’ à Polícia.

Na televisão local, a cereja do bolo se deu em uma edição do Bahia Meio Dia, o telejornal local da TV Bahia/Globo. Se já foi muito custoso para o telespectador ter que ajustar o imaginário para assistir, durante toda a semana, um Jornal Hoje completamente sob novas diretrizes em tempos de cobertura de Guerra (sabe-se que o talento inato do Hoje é misturar notícias mais relevantes com receita de ceia de natal e técnicas para arrumar a cama como nos quartos de hotel), mais difícil, para os baianos, foi fazer, sem escala, um percurso ainda mais nonsense. Em uma determinada edição, exibida em tempo encurtado pela necessidade da Globo de prolongar o Hoje por conta da ocupação dos morros, o que se viu merece entrar para os anais da esquizofrenia involuntária da televisão. Após a exibição indisfarçadamente esbaforida de um relato breve sobre o andamento da investigação do crime em que duas meninas tiveram as cabeças decepadas, eis que a apresentadora desce da bancada para o ‘chão’ do estúdio e pede a Léo Santana, da banda Parangolé, para apresentar (rebolando, claro) a coreografia de mais uma obra prima da novíssima poesia baiana, a canção Tchubirabirom. Como se fosse pouca coisa uma atração desse naipe imediatamente após uma cobertura de guerra e um relato trágico sobre meninas que tiveram as cabeças arrancadas, o cantante entoou, sem medo de fazer o telespectador feliz, o seguinte refrão: “Pega na cabeça e vai/Pra frente, pra frente/Cintura cabeça/Tchubirabiron/Olha pra frente, pra frente/Cintura cabeça/Tchubirabiron…”.

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado em 05 de Dezembro de 2010 no jornal A Tarde, Salvador/BA. maluzes@gmail.com

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