Diplomacia nua e camisinhas rasgadas

 

Publicaçaõ original em 13/12/2010 10:40

A notícia mais veiculada nas emissoras de TV de todo o mundo foi o segundo round do estrago feito pelo australiano Julian Assange, criador do site WikeLeaks, contra a sisudez que se convencionou esperar da diplomacia internacional. Após, há poucos meses, repassar para os principais jornais do mundo, como o inglês The Guardian, e o norte-americano New York Times, documentos que escancaravam os crimes de guerra cometidos pelos Estados Unidos no Afeganistão, Paquistão, Iraque e Guantánamo (Cuba), na última semana o site de Assange lavou a alma das celebridades de todo o mundo que, mesmo quando contra a sua vontade, não conseguem dar um passo ou pronunciar um A sem que isso vá parar nas manchetes dos sites, jornais, tablóides, revistas, telejornais e programas de entretenimento televisivos. As celebridades ganharam companhia na fita da invasão da privacidade.

Em tempos nos quais a vida acontece on line, desde a privada às rotinas das grandes corporações e agendas dos governos mais importantes do mundo, tudo acontece em tempo recorde. Se até ontem Assange era um desconhecido, em menos de dois meses tornou-se uma personalidade global, o fugitivo mais procurado pela Interpol até o início desta semana, quando entregou-se à Scotland Yard, na Inglaterra. Dificilmente lhe tirarão das mãos por um bom tempo a condição de responsável pelo maior vazamento de dados secretos da História. Assange anunciou aos ban ban bans da imprensa mundial ter nada menos que 250 mil documentos secretos da diplomacia dos Estados Unidos. Hillary Clinton, a prima dona das relações internacionais do Governo Barack Obama, já descobriu-se em saias justíssimas com a publicação de apenas meia dúzia deles.

LEIS DA CAMA – A história de Assange, no entanto, avança em publicização midiática, em todo o mundo, para muito além dos segredos de Estado e de grandes corporações norte-americanas, que ele diz também possuir. Algumas das nações tidas como entre as mais civilizadas do mundo, talvez justamente por isso, por já terem resolvidos todos os seus problemas basiquinhos, debruçam-se a elaborar leis estranhíssimas, algumas delas para legislar sobre o que se pode e não pode fazer na cama, na hora do sexo, entre quatro paredes, por livre e espontânea vontade do casal. É o caso da Suécia, embora poucos telejornais brasileiros, em suas quinhentas mil matérias diárias sobre a caçada e a prisão de Assange, pareçam sentir-se na obrigação de explicar certas minúcias do estupro à sueca. Minúcias que deixam de sê-las justamente por terem se tornado o grande álibi dos poderosos do mundo para enjaular o criador do WikiLeaks.

Na Suécia, se um homem vai para a cama com uma mulher, usa camisinha e esta se rompe durante o ato sexual, ele estará em maus lençóis e poderá ser caçado pela polícia em todo o mundo, caso não se apresente à lei imediatamente após o coito cujo desfecho incluiu um látex rasgado. A não ser que, antes do ato, o sujeito peça à parceira para assinar uma autorização, sim, escrita, dizendo que, ok, se algo do tipo acontecer, tudo bem. Infelizmente, o controle de qualidade de dois preservativos usados por Assange se mostrou falho com duas diferentes mulheres suecas, em sessões distintas. E ele nao teve a astúcia de pedir às moças que assinassem previamente uma autorização na qual isentariam Assange da responsabilidade pela borracha rasgada. Numa viagem à Suécia, em agosto deste ano, o hoje inimigo número um dos Estados Unidos manteve relações sexuais com duas mulheres. Coincidentemente, assim que os documentos de guerra americanos estamparam páginas, sites e telas de TV, apareceu uma denúncia de ambas por conta do preservativo partido. Não, nenhuma está ou esteve grávida. Uma o acusa de abuso sexual e outra de estupro, embora a razão da queixa seja a mesma já dita, o preservativo de baixa resistência.

CANDINHAS -Por isso, sim, por camisinhas rasgadas, e não pelo vazamento dos tais documentos secretos, Julian Assange está preso por estupro, pois o estupro à sueca pode ser muito diverso da violência exigida por aqui para caracterizar o ato sexual não consentido. O vazamento das informações confidenciais surrupiadas dos seguríssimos arquivos secretos da diplomacia dos estados unidos, com a ajuda prestimosa e eficientíssima de um soldado americano de 22 anos, tem provocado um alvoroço sem precedentes nas redes sociais, nas universidade, nos círculos militares, na imprensa e em qualquer conversa semi-intelectualizada sobre os limites da privacidade dos governos e sobre as virtudes das transparência das rotinas governamentais. Apesar do barulho, as informações veiculadas até agora mais parecem fofocas de Candinhas diplomáticas em tardes ociosas em salão de beleza. Como caracterizar de outra forma senão dessa a informação de que Hillary Clinton mandou o serviço secreto dos Estados Unidos investigar se a presidente argentina, Cristina Kirchner, goza de boa saúde mental e se toma remédios psiquiátricos, diante da impressão que a comadre latina lhe causou de ser uma desequilibrada menta? Outras informações secretíssimas do mesmo naipe dão conta de que a mesma Cristina fala mal do presidente Lula para puxar o saco se aproximar de Obama, que Hugo Chávez é doido e que os diplomatas brasileiros são paranóicos quanto aos interesses do mundo pela Amazônia.

Sobre o direito à privacidade reivindicado pelos diplomatas, estes têm a quem recorrer para uma boa consultoria: as celebridades. Se estas, que não vivem de salário pago pelo contribuinte, se não devem satisfação à opinião pública têm, mesmo quando não querem, suas vidas e rotinas avessadas ao grau zero, por que os diplomatas invocam a tese de que o acesso às suas formas de agir colocam em risco a segurança do mundo? Não é por nada, não é por nada, mas, até onde se sabe, a divulgação dos documentos americanos pelo WikiLeaks não provocou uma só morte até agora. Já as atrocidades cometidas pelas desrazões da diplomacia dos Estados Unidos deixaram pilhas de milhares de cadáveres, a maioria civis absolutamente inocentes, por onde passa com sua mania de ser a polícia do mundo. O Iraque, o Afeganistão e o Paquistão que o digam.

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado em 12 de Dezembro de 2010 no jornal A Tarde, Salvador/BA. maluzes@gmail.com

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