Fatalismo Piorado

Publicação Original: 29/11/2010 07:26

Às imagens espetaculares e hollywoodianas de automóveis e ônibus incendiados sob as ordens dos traficantes, no Rio de Janeiro, somaram-se o assombro causado pelo assassinato bárbaro de duas meninas em Salvador, de 13 e 16 anos, e pela morte, causada por uma bala perdida deflagrada pela Polícia, do garoto Joel Castro, 10 anos, atingido na cabeça quando se preparava para dormir, em casa, no Nordeste de Amaralina, Salvador. Mais trágica que a ocorrência desses três fenômenos ilustrativos do cotidiano brasileiro só mesmo a cantilena que dia sim e outro também se vê na TV, lê-se nos jornais, ouve-se nas rádios, nas ruas: como, deste jeito, o Brasil vai poder receber os turistas quando sediar uma Copa do Mundo e uma Olimpíada? Ou seja, a província é aqui. Dorme-se muito bem no chão duro e come-se em pratos de plástico; a cama macia, os lençóis de seda e a louça inglesa são coisas que devem ser reservadas a quem de direito: às visitas.

Lá, no Rio e nos telejornais nacionais, as imagens da convulsão social dos traficantes desafiando o poder publico e os cariocas, com seus arrastões, incêndios, tiros, armas e cerca de 30 mortes apenas nos quatro primeiros dias da semana. Aqui, a sensação de que tudo está se esvaindo ribanceira abaixo, diante da notícia de que duas meninas, ainda quase crianças, fugiram de casa reivindicando liberdade e hedonismo e foram encontradas mortas, 24 horas depois, decapitadas. E tão trágico quanto: a sensação de que aos filhos dos mais pobres está reservado um destino que os condenam a um fatalismo trágico que os colocam numa condição de vida ainda pior do que a de seus pais, quando o normal, numa sociedade civilizada e em um país em desenvolvimento, deveria ser o contrário: filhos com mais, maiores e melhores oportunidades de ter um futuro mais promissor do que o reservado a suas gerações antecessoras.

LAVADEIRAS – O detalhe que, tragicamente, salta aos olhos na morte do garoto Joel Castro é o fato de, há menos de um ano, ele ter estrelado uma campanha publicitária do governo da Bahia, sobre as maravilhas e belezas naturais da terra abençoada por todos os santos. Centrada em valores caros à chamada baianidade, a campanha continha, além da estrelada por Joel, outra peça em que uma mulher, negra e lavadeira de roupas, era ajudada por sua filha, criança, igualmente negra e muito feliz por andar para cima e pra baixo com a mãe, de buzu, entregava as peças limpinhas às clientes. Na peça protagonizada por Joel, ele repetia o mesmo mote da Bahia onde todas as crianças são felizes, sejam brancas ou negras, por viverem numa terra “mais justa, mais igual”. Assim como a filha da lavadeira de roupa, o personagem de Joel, que era o próprio menino, anunciava o seu sonho: seguir os passos do pai quando crescesse, ser mestre de capoeira. O tema da campanha turística era a ancestralidade. A dos baianos, da Bahia e da baianidade.

O assassinato incidental de Joel pela Polícia não poderia ilustrar de modo pior o desfecho trágico para a construção da ideia de que os amanhãs que cantam da Bahia só se dão no discurso publicitário. Na Bahia mais justa e mais igual da publicidade, Joel sequer vai poder ter a mesma vida simples e modesta do pai, tão modesta que o obrigava a manter o filho de 10 anos dormindo num colchonete gasto e no chão, num canto apertado do mesmo quarto, numa casa pobre do Nordeste de Amaralina, alvo fácil e provável para as saraivadas de balas da Polícia quando esta adentra as ruas estreitas do bairro, primeiro atirando e só depois anunciando que procura bandidos, disparando em confrontos que os moradores juram não ter havido.

CENÁRIO – O garoto propaganda da Bahia dos cartões postais sequer teve tempo para se versar nas artes da capoeira ancestral do pai pobre que encanta os turistas na terra da felicidade. Teve a vida abreviada e nenhum futuro. O menino feliz da propaganda da Bahia não tinha sequer uma cama e foi morto arrumando o colchonete para dormir no chão. Onde e como mora e vive a menina que interpretou a filha feliz da lavadeira de roupa que fica cruzando a cidade de ônibus para entregar as roupas lavadas pela mãe aos bem nascidos?

Uma coisa talvez não tenha nada a ver com a outra, mas que a equação é emblemática, ah, isso é: o menino negro, feliz e que convidava o mundo para vir para a Bahia ver como essa terra é linda e impregnada de ancestralidade, em sua vida de verdade, quando os holofotes da cena publicitária se apagavam, saía do cenário paradisíaco e ia dormir sobre a verdade literalmente dura: no chão do quarto apertado do pai, numa casa exígua, num beco estreito. No fim da história, o fatalismo que ameaça o futuro mais justo das crianças pobres da terra da felicidade alheia pode ser de um tipo ainda pior que a repetição, numa ordem em que se acha poético ver filhas de lavadeiras seguindo os passos da mãe. O fatalismo sempre pode ser piorado. As crianças pobres sequer podem ter a chance de repetir a vida árdua e de sacrifício dos pais. Podem morrer antes, com um tiro na cabeça, disparado pela Polícia.

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado em 28 de Novembro de 2010 no jornal A Tarde, Salvador/BA. maluzes@gmail.com

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