Mandato de Deputado Estadual de Aristeu Nogueira é devolvido simbolicamente à família

Postagem original em 03-04-2014 21h54m

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Diógenes recebeu o Diploma das mãos do presidente Marcelo Nilo (esq) e dos deputados Zé Raimundo e Euclides Fernandes

Comunista cassado pelo Golpe de 1964, falecido em 2006, foi representado por seu filho Diógenes Campos

A Assembléia Legislativa da Bahia devolveu simbolicamente os mandatos de 13 parlamentares (ver lista abaixo) cassados pelo Golpe de 1964. Entre eles estava o notório comunista iraraense, Aristeu Nogueira Campos.

O evento cerimonial para a devolução simbólica dos mandatos aconteceu na segunda, 31 de março, véspera do aniversário de 50 anos do Golpe Militar (01 de abril 1964), no auditório do Anexo Juatahy Magalhães, na Assembléia Legislativa.

A sessão foi dirigida pelo presidente da Casa, deputado Marcelo Nilo (PDT), e teve o governador Jaques Wagner como um dos convidados à mesa dos trabalhos.

Leia notícia do site da Assembléia

Veja fotos

Sessão

O discurso de abertura foi proferido pelo deputado Marcelino Galo (PT), presidente da Comissão Especial da Verdade – Bahia. A instituição foi responsável pela convocação da cerimônia e a devolução simbólica dos mandatos aos cassados.

Dos 13 cassados em 1964 apenas quatro estão vivos: Luiz Leal, Marcelo Duarte, Wilton Valença e Sebastião Nery. Os três primeiros estavam presentes, Nery, impedido de comparecer devido a uma cirurgia, foi representado por sua irmã, a freira Fátima Nery.

Os três presentes estavam juntos aos parentes e representantes dos colegas ao lado da mesa dos trabalhos. Ao passo que eram chamados eles se levantavam para receber o Diploma de Deputado. Enquanto isso, imagens e um breve histórico do homenageado apareciam em um telão.

Leia monografia com perfil biográfico de Aristeu Nogueira

Um Iraraense

Entre os 13 homenageados, um era Iraranese. Aristeu Nogueira, falecido em 2006, foi representando pelo seu filho, Diógenes Almeida Campos. As filhas de Aristeu, Vera Felicidade e Mariana Campos, estavam presentes na platéia, além de netos e bisnetos do comunista.

Ao proferir o seu discurso (leia abaixo ou veja vídeo), o paleontólogo Diógenes Campos se emocionou ao rememorar a luta de Aristeu em prol da causa pública. Ele lembrou sofrimentos causados pelas perseguições e o trabalho desenvolvido por seu pai em Irará, especialmente na organização dos trabalhadores do campo.

A cerimônia foi encerrada com a execução do hino ao 02 de Julho. O refrão, “com tiranos não combinam brasileiros corações”, dava o tom da cerimônia. Um evento para referendar a democracia, valorizar a memória e alertar contra o despotismo.

Como bem disse o ex-deputado comunista Luis Contreiras, convidado à mesa: “Ditadura, nem a do proletariado funcionou”.

Os 13 Cassados em 1964

Aristeu Nogueira, Diógenes Alves, Ênio Mendes, Giocondo Dias, José Luiz Soares Palmeira, Luiz Leal,

Luiz da Silva Sampaio, Marcelo Duarte, Octávio Lacerda Rolim,

Oldack Neves, Osório Vilas Boas, Sebastião Nery e Wilton Valença.

Discurso de Diógenes Almeida Campos:

Veja Vídeo

Transcrição:

“Exmo. Sr. Presidente da Assembléia Legislativa da Bahia, Marcelino Nilo, Exmo. Sr. Governador do Estado da Bahia, Jacques Wagner, Exmos. Srs. Deputados, demais autoridades presentes, senhoras e senhores.

Em primeiro lugar, gostaria de agradecer a essa iniciativa da Comissão da Verdade, na pessoa do Deputado Marcelino Gallo, agradecimento esse extensivo a sua equipe de trabalho. Falo não só em meu nome pessoal, mas, também no dos descendentes de Aristeu Nogueira, suas filhas, Vera Felicidade e Mariana, seus netos Cátia, Clarissa, Elisa, Aurélio e Diogo e seus bisnetos João Vicente e Miguel.

As ações que culminaram com a cassação dos direitos políticos e, consequentemente, com o mandato de deputado nessa Assembléia Legislativa, de meu pai Aristeu Nogueira, foram a resposta injusta e antidemocrática do trabalho incansável que ele desenvolvia no sentido de estabelecer um partido político que pudesse de forma lídima organizar trabalhadores em busca da garantia mínima de seus direitos sindicais e de cidadania.

Essas ações já tinham se revelado de maneira violenta e ilegal, inclusive com atentados a bomba em sua residência, situada em pacata rua do bairro do Barbalho, que pagava o pecado de nela abrigar um comunista.

Aristeu teve sua carreira de vida abortada pelo ato de cassação, tanto em seus direitos políticos como em seus direitos à personalidade, sendo compelido, para não sofrer maiores violências, cair na ilegalidade durante 11 anos, até ser preso, ainda de forma ilegal, em 1975.

O prejuízo à vida pessoal de Aristeu, estendeu-se à vida de seus filhos, o qual os obrigou a procurar abrigo em casa de parentes e amigos, passaram a não contar com a participação paterna em suas vidas, em seus respectivos casamentos, nem com a sua presença nas comemorações mais marcantes do início da vida de seus netos. Além de sofrerem dificuldades em obter empregos, numa ilegal atitude de estender a pena de um pretenso crime além da pessoa do acusado.

Hoje, revendo com atenção os eventos de 1964 e analisando-os à luz de um símile do darwinismo, ao qual estou acostumado, paleontólogo que sou, vejo que todo o setor político brasileiro foi privado da evolução dos quadros que se formaram ao longo dos sucessivos acontecimentos das décadas de 30, 40 e 50 e que naquele momento, com Aristeu e seus pares, estavam aptos para lançarem as bases de um país democrático e progressista.

Ao contrário, a poda devido às cassações, ao arbítrio dos atos institucionais e às eleições indiretas conduziram o país aos ‘anos de chumbo’ e a um notável enfraquecimento da classe política brasileira, permitindo o aparecimento de grupos vicariantes mal preparados e sem a experiência dos verdadeiros valores republicanos e democráticos.

A vida pessoal de Aristeu e de seus familiares foi transformada, mas acredito que mais sofreu a justiça e a política do país, que até atravessou fases de relativo progresso econômico, mas que pecou em longos períodos de suspensão dos direitos políticos e individuais, incluindo o da liberdade de expressão.

Depois de, preso, torturado, foi julgado, condenado e finalmente libertado e anistiado, Aristeu retoma as suas atividades políticas em Irará, sua cidade natal, organizando sindicatos rurais e cooperativas de artesãos em Olaria e na produção de farinha de mandioca, pondo em prática, e mostrando aos jovens que o admiravam, a maneira de como foi temperado o aço de sua vontade férrea e constante.”

Salvador, 31 de março de 2014 – Diógenes de Almeida Campos

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