A assessoria de imprensa da cacatua

É claro que mesmo em tempos de triunfo do nadismo (novo gênero noticioso, batizado neste texto) somente um bom assessor de imprensa de passarinho poderia cavar na imprensa nacional espaços nobres para a cacatua órfã de Hebe, saudosa e melancólica

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O nada virou manchete. O jornalismo criou um novo gênero nas últimas décadas e vê-se diariamente que ele avança a passos largos. Reina nos jornais impressos, no telejornalismo, nos sites noticiosos, nas versões on line dos jornalões e, obviamente, triunfa recirculando nas redes sociais. Esse novo gênero noticioso, batizado neste texto pelo sugestivo nome de nadismo, consiste em noticiar coisas (chamá-las de fatos ou acontecimentos seria usar inadequadamente as duas palavras) que aparentemente não têm nenhuma importância e, de fato, não têm, mas que, paradoxalmente, quando noticiadas, são sucesso estrondoso de público.

Para quem ainda não ligou o nome à coisa, eis alguns exemplos paradigmáticos do fenônemo, todos fresquinhos. Se alguém vive no Brasil e não estava em coma nas últimas semanas, soube, graças ao nadismo, que Tony Salles, uma das sumidades da novíssima música baiana, e que também atende como sinônimo de marido de Sheila Carvalho, que por sua vez atende por “a ex-morena do Tchan” e, mais recentemente, por “uma das confinadas de A Fazenda”, tem uma amante disposta a dar as duas córneas e algo mais para ser manchete em qualquer plataforma que dedique espaço a esse gênero jornalístico.

E por falar em A Fazenda, o reality da Record que mimetiza o Big Brother da Globo, só que juntando ao elenco animais de verdade, é preciso dizer que o nadismo não seria o que é se não fossem os realities. Deles saem em série dezenas de personagens que vão alimentar esse tipo de jornalismo. Também esta semana, um outro participante d’A Fazenda virou manchete mais ou menos nesses termos: “Gominho conta fato curioso sobre Ivete”. Parem as máquinas! A manchete nadista referia-se à impactante revelação do gordinho de que, certa vez, presenciara Ivete Sangalo pagando uma conta de restaurante, em vez de recorrer à cortesia, como seria a norma entre os famosos. O texto noticioso a que se referia tal manchete descia a profundidades inimagináveis: sobre o gesto da cantora, o elenco do reality comentou que o garçom deveria ter chorado de emoção. Por ter recebido a conta.

O nadismo tem suas musas locais, nacionais e até mirins. A mirim é Rafaela Justus, que não chupa um pirulito sem que seja manchete nacional. As locais com mais centímetro em informação desimportante, como talvez se dissesse em Saramandaia, são Aline Rosa e Anamara, ex-BBB. Veicula-se sobre as duas coisas do tipo: fulana posta foto com bocão em rede social. Não, não se trata de foto em companhia do apresentador José Eduardo, o Bocão, mas dos lábios propositalmente protuberantes diante da câmera, fazendo aquelas poses típicas do show do eu. O cúmulo do nadismo nacional, no entanto, deu-se esta semana. Descobriu-se que, no Brasil, até passarinho de defunto famoso tem assessor de imprensa. Tem sim. Senão, o que explica o surgimento da informação, em vários sites, de que Hebe Camargo tinha uma cacatua que, quase um ano depois da morte da dona, o bicho continua inconsolável?

É claro que mesmo em tempos de triunfo do nadismo somente um bom assessor de imprensa de passarinho poderia cavar na imprensa nacional espaços nobres para a cacatua órfã de Hebe, saudosa e melancólica, com manchetes assim: “Cacatua de Hebe mata saudade com foto da apresentadora”. Abaixo, aparecia o pássaro em frente a uma foto em close da dona do sofá mais famoso do Brasil. Sim, o fim dos tempos do jornalismo de conteúdo parece estar próximo quando assessores de imprensa forjam manchetes sobre saudades imaginadas de passarinho de morto e plantam fotografias a centímetros de seu bico.

* Malu Fontes é jornalista e professora de jornalismo da Ufba

Texto originalmente pública no Correio 24 Horas

Post no Irarense em 08-08-2013 11h24m

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