As tranças do careca

A melhor frase do publicitário Nizan Guanaes – um dos cérebros em fuga da Bahia segundo Dimenstein – foi sem dúvida: “Salvador está como Bell do Chiclete. Careca e fingindo que tem trança”.

Publicado originalemente em 15/02/2012 17:55

A melhor frase do publicitário Nizan Guanaes – um dos cérebros em fuga da Bahia segundo Dimenstein – foi sem dúvida: “Salvador está como Bell do Chiclete. Careca e fingindo que tem trança”. Bom, na verdade a frase não é tão boa assim, Salvador está descuidada [o que é muito diferente de decadente] e esse não é o caso de Bell. Ele não tá “lisinho” esse ano, nem no sentido facial-capilar e muito menos na gíria de descapitalização monetária, mas está bem longe de ser uma figura descuidada.

Por que a alegoria do cérebro fujão é boa? Por que é fantasiosa no sentido de vender uma imagem, que está longe de ser aquilo representa. Porque tem uma bandana cobrindo aquilo que todos querem esconder, mas que no fundo, ou melhor, na intimidade do espelho da suíte da cobertura no centro de Salvador ela se revela.

Não, eu não estou falando da Cidade de São Salvador. Mas uso a alegoria para falar da maior de todas as alegorias destas bandas: O carnaval. Pois o cérebro não fujão que está embaixo da careca coberta por bandana, revelou ao mundo uma verdade que surpreendeu a todos por “ter sempre estado oculto / quando terá sido o óbvio”: A corda une.

“A corda dos blocos é necessária para que ricos e pobres possam usufruir do Carnaval”, declarou o antigo baixista da banda Scorpius num arroubo de inteligência que fez corar a herma de Rui Barbosa – outro cabeçudo que se picou daqui muito antes do Chiclete arrastar o Voa-voa. Foi essa lógica que transformou a nossa popular festa de rua, uma desordem organizada, num dos maiores espetáculos da Terra, rentável, camarotizável e principalmente televisionada para mais de 500 países como citou alguma destas apresentadoras bonitinhas que aparecem aqui no período momesco.

É por isso que desbancamos Recife por exemplo. Lá uma rede nacional de TV tentou transmitir o “desfile” dos blocos e fanfarras, mas a balbúrdia foi tão grande, a algazarra sonora tão indecifrável, que a idéia foi logo abortada. Diabos de carnaval é esse que o povo não para quieto e se move em todas as direções? Não tem circuito, relógio marcando tempo, fantasia padronizada pra distinguir os foliões nem sambódromo? Pensam que isso é reino de Baco?

Pior ainda esse movimento que retoma o carnaval de rua no Rio. Preocupante valorizar um carnaval que não tem vencedor, não tem júri, nem troféu pro melhor bloco. Não tem destaque e muitas vezes o rei/rainha homenageado tá mais bêbado que você. Sem falar que dá espaço pra um bocado de músico não profissional que só deveria tocar no quintal. Carnaval não é para amadores.

Pois bem, péssima notícia pros pensadores alopécicos: Essa praga de carnaval da balbúrdia tá ressuscitando aqui mesmo, na nossa reentrância [lá ele] geográfica. Sim mermão, coloque sua barba de molho antes de vender! Espiões infiltrados nos mais diversos recônditos da cidade atestam que os bailes dos tempos do Tabaris*, Fantoches da Euterpe e afins começam a ter mais de meia dúzia de gatos pingados. E pior ainda! Blocos genuinamente de rua começam a ganhar força com sua fanfarras e sambas pelos bairros outrora boêmios do Santo Antônio* e Pituba*.

Sei que o império do axé contra-ataca. A moda é sair um dia sem corda ou colocar a pipoca dentro de uma bolha* para ludibriar os incautos. Até encontro de trios parece que vai rolar né? Com dois garotos bem talentosos da família Marques. Enfim a idéia de reviver a época de ouro dos carnavais fazendo a galera pagar por todo modelo atual parece boa, mas é bom estar atento. Não podemos deixar a bandana cair. Afinal o que a corda une, nem mesmo o Deus do coração e o diabo do quadril separa.

*Tabaris – onde o som era melhor que Bee Gees atesta Chico Buarque

*Blocos como de Hoje a Oito, Banda da Pituba e Habeas Copus ganham força quebrando a lógica do atual mercado carnavalesco.

*PopCorn Experience

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