De vítima a ignorante

Entretanto, adjetivar negativamente uma população por seu desinteresse pelos chamados produtos da média e alta cultura equivale ao mesmo equívoco cometido quando se atribui à mocinha vestida numa microssaia a responsabilidade pelo estupro do qual foi vítima.
Publicação original 04/02/2011 20:04

Quando uma pesquisa revela que a população de Salvador não tem como hábito ou prioridade frequentar espetáculos culturais, certamente a primeira tentação dos bem intencionados defensores da alta cultura é adjetivar o universo dos pesquisados da maneira mais óbvia: um bando de ignorantes.

Entretanto, adjetivar negativamente uma população por seu desinteresse pelos chamados produtos da média e alta cultura equivale ao mesmo equívoco cometido quando se atribui à mocinha vestida numa microssaia a responsabilidade pelo estupro do qual foi vítima.

Uma população que não gosta de teatro, museus, artes plásticas e cinema, entre outras modalidades, nada mais é senão o produto mastigado, engolido e deglutido pelos poderes públicos que sempre lhe destinaram uma educação de péssima qualidade e também das elites econômicas que preferem ter ao seu dispor espécimes humanas de cordeiros dóceis, incapazes de refletir sobre o modo como são tratados. Sim, pois não dá para dissociar a capacidade e a habilidade de entregar-se à fruição proporcionada pela arte sem expandir a consciência de si e sem desenvolver posturas críticas diante das mazelas sociais de que se é vítima.

O fato é que a mesma elite que torce o nariz para a turba ignara que não vai ao teatro é a mesma que se regozija por as coisas serem assim, pois, se o comportamento cultural fosse diferente, isso produziria efeitos críticos devastadores nos modos desse público confrontar-se com a própria elite. A arte revolve e estimula a reflexão. Ou alguém acredita que é coincidência o fato de esta cidade investir tanto e tão somente em práticas culturais que mobilizam apenas os baixos instintos?

Já as autoridades públicas que reagem com declarações paternalistas são ainda mais perversas, pois a indiferença da população às artes é tão somente efeito colateral de uma educação de eficácia mínima que essas mesmas autoridades lhe negaram a vida inteira.

Além de ser injusto e abaixo do vulgar responsabilizar e tachar de ignorante quem não vai ao teatro, ao cinema, ao museu, vale lembrar outros detalhes tão grandes deste estado de coisas. A quase totalidade dos museus não abre aos domingos e feriados e, durante a semana, a maioria trabalha ou vai à escola (sum, para continuar sendo tábula rasa). E a que horas são encenados a maioria dos espetáculos de teatro? E onde ficam localizadas as salas de espetáculos senão em bairros centrais? Se os trens do subúrbio não funcionam nem mesmo para levar as pessoas para o trabalho e trazê-las de volta, se o poder público não consegue, em 12 anos, colocar um metrô para funcionar, como querem que as pessoas voltem para casa à meia noite, após assistir uma peça de teatro? Para o Muquifest, as empresas de transporte coletivo destinam um esquema especial de ônibus…

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicacão e Cultura Contemporâneas e professora da Faculdade de Comunicação da UFBA; maluzes@gmail.com; texto publicado originalmente (em versão reduzida) no jornal A Tarde deste sábado, 29 de Janeiro/2011.
Publicação original 04/02/2011 20:04

Quando uma pesquisa revela que a população de Salvador não tem como hábito ou prioridade frequentar espetáculos culturais, certamente a primeira tentação dos bem intencionados defensores da alta cultura é adjetivar o universo dos pesquisados da maneira mais óbvia: um bando de ignorantes.

Entretanto, adjetivar negativamente uma população por seu desinteresse pelos chamados produtos da média e alta cultura equivale ao mesmo equívoco cometido quando se atribui à mocinha vestida numa microssaia a responsabilidade pelo estupro do qual foi vítima.

Uma população que não gosta de teatro, museus, artes plásticas e cinema, entre outras modalidades, nada mais é senão o produto mastigado, engolido e deglutido pelos poderes públicos que sempre lhe destinaram uma educação de péssima qualidade e também das elites econômicas que preferem ter ao seu dispor espécimes humanas de cordeiros dóceis, incapazes de refletir sobre o modo como são tratados. Sim, pois não dá para dissociar a capacidade e a habilidade de entregar-se à fruição proporcionada pela arte sem expandir a consciência de si e sem desenvolver posturas críticas diante das mazelas sociais de que se é vítima.

O fato é que a mesma elite que torce o nariz para a turba ignara que não vai ao teatro é a mesma que se regozija por as coisas serem assim, pois, se o comportamento cultural fosse diferente, isso produziria efeitos críticos devastadores nos modos desse público confrontar-se com a própria elite. A arte revolve e estimula a reflexão. Ou alguém acredita que é coincidência o fato de esta cidade investir tanto e tão somente em práticas culturais que mobilizam apenas os baixos instintos?

Já as autoridades públicas que reagem com declarações paternalistas são ainda mais perversas, pois a indiferença da população às artes é tão somente efeito colateral de uma educação de eficácia mínima que essas mesmas autoridades lhe negaram a vida inteira.

Além de ser injusto e abaixo do vulgar responsabilizar e tachar de ignorante quem não vai ao teatro, ao cinema, ao museu, vale lembrar outros detalhes tão grandes deste estado de coisas. A quase totalidade dos museus não abre aos domingos e feriados e, durante a semana, a maioria trabalha ou vai à escola (sum, para continuar sendo tábula rasa). E a que horas são encenados a maioria dos espetáculos de teatro? E onde ficam localizadas as salas de espetáculos senão em bairros centrais? Se os trens do subúrbio não funcionam nem mesmo para levar as pessoas para o trabalho e trazê-las de volta, se o poder público não consegue, em 12 anos, colocar um metrô para funcionar, como querem que as pessoas voltem para casa à meia noite, após assistir uma peça de teatro? Para o Muquifest, as empresas de transporte coletivo destinam um esquema especial de ônibus…

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicacão e Cultura Contemporâneas e professora da Faculdade de Comunicação da UFBA; maluzes@gmail.com; texto publicado originalmente (em versão reduzida) no jornal A Tarde deste sábado, 29 de Janeiro/2011.

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