DRAMA, MAU GOSTO E DITADORES

Do mesmo modo, os modos de relacionamento que o governo argentino vem construindo com a imprensa que lhe faz oposição não querem dizer outra coisa senão revelar a vontade da democrata e republicana Senhora Kirchner de deter o maior controle possível sobre o que dizem e mostram dela os meios de comunicação. Se, na Coreia, o medo do ditador pode ter obrigado o povo a chorar de modo convulsivo, mesmo sem querer, na Argentina a presidente democraticamente eleita quer, do mesmo modo, impor o que o seu respectivo povo pode saber ou não a respeito de sua gestão.

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Entre as imagens que marcaram a semana televisiva uma destacou-se: o espetáculo de histeria coletiva jamais visto nos telejornais. O público está acostumado a funerais de papas, ídolos da música, astros da história do cinema e de lideranças políticas de todos os matizes ideológicos. Mas quem já havia visto cenas de multidões histéricas nas ruas, sem precisar sequer estar no espaço físico do funeral, como se viu nas imagens que correram o mundo anunciando a morte do ditador norte-coreano Kim Jong II? Como todas as imagens foram distribuídas no mundo pelo governo coreano, uma das ditaduras mais fechadas do mundo, os telejornais questionam até que ponto a emoção do povo era legítima ou uma espécie de performance coletiva diante das câmeras por medo de represálias por parte dos sucessores do regime.

NU – Se em termos de imagens as caras, caretas, lágrimas e arremedos de catarse dos coreanos dominaram a seara televisiva, quando se trata de fatos, e também em escala internacional, não tem pra ninguém: o tema da vez é Cristina Kirchner, a espevitada presidente da Argentina, a viúva de Nestor, recém reeleita. Enquanto Cristina dava um pulinho no vizinho Uruguai, para participar de uma reunião do Mercosul, 50 militares da Gendarmeria, polícia especial que atua nas fronteiras do país, invadiam a sede da Cablevisión, uma emissora de TV a cabo do grupo Clarín, que faz oposição ao governo Kirchner.

O fato é que, mesmo que a presidente argentina jure sobre o túmulo do marido morto que nada tem a ver com a incursão fora de moda da Gendarmeria, quem há de acreditar que não há um dedinho do desejo da Casa Rosada na invasão? E como se fosse pouco, enquanto debatia pendengas econômicas com seus colegas do cone sul, Cristina teve de lidar com uma notícia trágica, essa tragicíssima, a ponto de, como num bom drama argentino, lhe fazer tombar semi-desmaiada: seu subsecretário de Comércio Exterior, Iván Heyn, 34 anos, unha e cutícula com seus filhos, foi encontrado enforcado no quarto do hotel onde estava hospedada a cúpula argentina. O Clarín noticiou que o corpo foi encontrado nu, pendurado em um cabide.

REFRESCO – Independentemente das razoabilidades e dos anacronismos que nortearam a invasão da emissora de TV por militares argentinos, a cena com as imagens na sede da Cablevisión foram do tipo de provocar enjoo em quem sabe o que a relação militares versus imprensa representa para a Argentina e para o mundo. Nas portas de 2012 e em um mundo onde até as empedernidas ditaduras árabes tiveram seus pés de ferro irreversivelmente avariados, ver a presidente argentina reivindicar para seu governo o monopólio de papel jornal como forma de trazer a imprensa que lhe faz oposição em rédea curta soa, no mínimo, como uma vilania política de muito mau gosto e sem lugar no tempo. Quem não vê nada demais nisso, que faça um exercício imaginário e pense em Dilma Roussef querendo fazer algo parecido com a mídia impressa brasileira ou em algum braço armado do estado brasileiro invadindo uma emissora de TV. Milico na redação dos outros não deve parecer refresco. E não é.

Embora os dois episódios, a histeria popular em imagens distribuída às emissoras de TV de todo o mundo pelo governo coreano, e a invasão da emissora de TV pelos militares argentinos, pareçam não guardar absolutamente nada em comum entre si, em ambos se vê a importância e a força da imagem, seja para ditaduras que se assumem como tal, seja para governos que se reivindicam democráticos e estão no poder pela legitimidade das urnas. Se, como desconfiam os telejornais do ocidente, a histeria dos coreanos é um produto do medo dos súditos de não parecem emocionados sempre que uma câmera de TV a serviço da ditadura é ligada, isso pode ser traduzido como o valor que a imagem tem, mesmo para as ditaduras mais radicais e fechadas do mundo.

OVO – Do mesmo modo, os modos de relacionamento que o governo argentino vem construindo com a imprensa que lhe faz oposição não querem dizer outra coisa senão revelar a vontade da democrata e republicana Senhora Kirchner de deter o maior controle possível sobre o que dizem e mostram dela os meios de comunicação. Se, na Coreia, o medo do ditador pode ter obrigado o povo a chorar de modo convulsivo, mesmo sem querer, na Argentina a presidente democraticamente eleita quer, do mesmo modo, impor o que o seu respectivo povo pode saber ou não a respeito de sua gestão. Nos dois casos, o ovo da serpente dos ditadores e seu poder controlador está sob as imagens e as notícias, mesmo se tratando de países, pessoas e eventos tão diferentes.

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 25 de dezembro de 2011, no jornal A Tarde, Salvador/BA; maluzes@gmail.com

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