É DISSO QUE O POVO GOSTA?

 

Os telespectadores que fazem o tipo profundo podem até fazer muxoxo com as formas das coisas televisivas como elas são, mas é bom registrar e corticalizar: “Edilson que o povo gosta, Edilson que o povo quer”. Não é, TV Bahia? Sim: a audiência pauta o conteúdo. Simples assim. E numa prova de que a superioridade está sempre na vida do vizinho, o caso Ketchup atingiu o posto de assunto mais lido do Guardian no dia em que foi veiculado. Ou seja, nem os ingleses estão tão a fim assim de profundidades. O mundo é cada vez mais dos rasos.

 

Com a popularização da Internet e, sobretudo, com o sucesso das redes sociais, hoje os telejornais têm muito mais possibilidades de mensurar o quanto determinados temas abordados sob a forma de notícia caem ou não no gosto do telespectador. Se antes da febre das redes sociais já se falava em notícias de interesse público (aquelas que se relacionam a fatos que dizem respeito à vida de todos os cidadãos) e notícias do interesse ‘do’ público (aquelas que dizem respeito à vida das celebridades e a fait divers e que só são veiculadas para inflar a audiência), hoje pode-se dizer que há um terceiro fenômeno em curso: as notícias de interesse público ou interesse ‘do’ público que passam a fazer parte de uma terceira agenda: a agenda da audiência do público específico das redes sociais.

O fato de um tema abordado nos fóruns noticiosos tradicionais ter bombado no Twitter ou no Facebook, por exemplo, não significa necessariamente que as notícias relacionadas a ele tenham tido o mesmo nível de repercussão pública na vida social off line. A audiência das redes sociais talvez venha a adquirir uma equivalência à da televisão, mas ainda não são a mesma coisa. Há, portanto, uma agenda pública e uma agenda do público das redes sociais. Entretanto, mesmo que o conceito de audiência da televisão ainda não sirva para traduzir nos mesmos termos a audiência e repercussão nas redes sociais, é fato que as redes são, sim, um poderoso instrumento de aferição do que ganha repercussão.

SOVACO – Com as time lines das redes sociais, muito da incredulidade de parte dos telespectadores sobre as razões de algumas emissoras darem destaque a esse ou aquele tema pode, agora, encontrar algumas respostas diante do tamanho da repercussão desses nas redes. Recentemente, por exemplo, uma matéria produzida por Patrícia Nobre pela TV Bahia e exibida no Jornal Hoje em poucas horas estava nos trend topics do Twitter, comentada por milhares de pessoas no país inteiro. O tema? Esmaltes. Sim: cores da moda, dicas de conservação para não fazer bolinhas, fórmulas para durar na unha, etc. Naquele dia essa foi a matéria que mais repercussão gerou. Ou seja, enquanto muito telespectador que faz o tipo profundo deve ter achado o Ó uma matéria grandona sobre esmaltes e mulherzinhas, um exército de gente foi ao paraíso com a abordagem e a emissora teve como ficar sabendo disso.

Um outro exemplo recente de que há muito mais razões entre as notícias que caem na boca do povo e o nível de interesse que elas possam conter do ponto de vista do interesse público foi a estrondosa repercussão adquirida pelo caso da Mulher-Ketchup, o episódio ocorrido no interior da Bahia, em Pindobaçu, em que Erenildes Aguiar Araújo, 32 anos, forjou a própria morte lambuzando-se de ketchup e posando para fotos passando-se por um cadáver com uma peixeira embaixo do sovaco. O objetivo foi dividir o cachê como o matador contratado para eliminá-la e, de sobra, divertir-se aparecendo viva para a mandante do crime, a amante de seu marido.

BELISCO – Soube-se que, em Salvador, ao dar pela primeira vez a notícia da Mulher-Ketchup, alguns âncoras de telejornais tiveram que beliscar-se com força sob a bancada para não cair na gargalhada. Do lado de cá da tela, certamente muita gente deve ter se perguntado por que tamanha bizarrice mereceria destaque no telejornal local. Menos de uma semana depois, no entanto, o caso não havia adquirido uma superdimensão apenas local, mas nacional, internacional. Foi parar na capa de portais de grandes jornais internacionais, como o Guardian, o Daily Mail e abriu a edição do Fantástico do último domingo, com direito ao envio a Pindobaçu, pela Rede Globo, do repórter de rede, o grifado José Raimundo, para entrevistar os principais personagens da trama. Como ocorre sempre que se trata da Globo, é claro que em dois tempos a produção convenceu todo mundo a falar diante das lentes globais do Fantástico, até mesmo a envergonhada mandante. Coisa rara é achar quem não aceite falar com a Globo.

A moral da história é que, como veículos comerciais que são, eivados de todo o talento do mundo para ganhar dinheiro à custa da venda dos olhos dos telespectadores para os anunciantes, as emissoras de televisão podem até desagradar os mais exigentes ao colocar bandas rastaqueras nos estúdios dos seus telejornais, ao eleger temas ocos para suas matérias e ao mandar um ex-jogador de futebol negro pular muro para ‘invadir’ casa de famosos do esporte. Mas que elas sabem o que estão fazendo, ah, como sabem…

O MUNDO É RASO – Os telespectadores que fazem o tipo profundo podem até fazer muxoxo com as formas das coisas televisivas como elas são, mas é bom registrar e corticalizar: “Edilson que o povo gosta, Edilson que o povo quer”. Não é, TV Bahia? Sim: a audiência pauta o conteúdo. Simples assim. E numa prova de que a superioridade está sempre na vida do vizinho, o caso Ketchup atingiu o posto de assunto mais lido do Guardian no dia em que foi veiculado. Ou seja, nem os ingleses estão tão a fim assim de profundidades. O mundo é cada vez mais dos rasos.

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 02 de outubro de 2011, no jornal A Tarde, Salvador/BA. maluzes@gmail.com

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