Entrou água

Levando-se em conta que a marca do governo federal é “um país rico é um país sem pobreza” e contrapondo-se essa frase de efeito aos últimos índices de analfabetismo identificados pelo IBGE no Brasil, pode-se, sim, dizer que entrou água na tese governamental de que somente nos últimos dois anos 22 milhões saíram da pobreza.

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No vocabulário do senso comum, entrar água é uma expressão usada para traduzir quando um projeto ou plano deu ou começa a dar errado, frustrando as expectativas de quem o planejou e de quem acreditava nele. Levando-se em conta que a marca do governo federal é “um país rico é um país sem pobreza” e contrapondo-se essa frase de efeito aos últimos índices de analfabetismo identificados pelo IBGE no Brasil, pode-se, sim, dizer que entrou água na tese governamental de que somente nos últimos dois anos 22 milhões saíram da pobreza. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio, 8,7% da população brasileira acima de 15 anos é analfabeta. Em números absolutos, o Brasil tem 13,163 milhões de analfabetos. Se isso não é uma forma gigantesca de manutenção de pobreza, no país que ocupa o 7º lugar no ranking da economia mundial, é porque, no mínimo, esse país adota um sentido esdrúxulo para a palavra pobreza. Como pensar em saída da pobreza com tanta gente incapaz de ler e escrever?

No Nordeste, a taxa de analfabetos triplica: 25% da população acima de 7 anos, cenário equivalente ao da Índia. Entre a população adulta nordestina, a Pnad aponta que um entre cada 4 homens com mais de 25 anos é incapaz de escrever um bilhete, identificar sem ajuda de terceiros o itinerário de um ônibus ou ler qualquer instrução. Como os complexos brasileiros, sejam de superioridade ou inferioridade, só permitem que a população enxergue-se a partir da comparação com os países ricos ou com os miseráveis, eis o índice de analfabetismo em países como Estados Unidos, Alemanha e Nova Zelândia: em torno de 1%. É verdade que as coisas não mudaram muito em relação à última Pnad, quando o número de analfabetos no Brasil era de 12,866 milhões. O problema está menos na comparação entre os números absolutos de analfabetos de 2011 e de 2012 e mais no que eles revelam quase discretamente: em vez de fazer cair o número de analfabetos no país, os governos, seja nas esferas federal, estadual ou municipal, conseguiram a proeza de fazer o número de analfabetos crescer.

Na Bahia, onde se cultiva o talento de transformar até tragédia em festa, mesmo que para isso seja preciso torturar números, a tradução dos números do analfabetismo local chegou a ser engraçada. Vale reiterar que, no contexto nacional, os estados onde houve maior crescimento do analfabetismo foram justamente Bahia, Tocantins, Paraíba e Pernambuco. Como isso foi traduzido por aqui? Retirando-se a Bahia do contexto do país, inserindo-a apenas no cenário nordestino, onde todos os estados não têm nada a comemorar, e falando-se não do aumento do número, mas enfatizando-se que, no Nordeste, a Bahia é o melhor estado em números (absolutos) de analfabetos. 15,86% dos baianos são analfabetos. Com ou sem Topa (Todos Pela Alfabetização), programa do governo do estado para alfabetização de adultos.

Nem precisaria repetir, mas não custa nada. Quando se fala em brasileiros resgatados da miséria, isso significa basicamente que essas pessoas passaram a ter (mais) comida na mesa e que, para além da comida, foram incluídas no admirável mundo do consumo. E é aí que o conto de fadas contado pelas políticas públicas não resiste a reflexões que se pretendam ir além da superfície: quem disse ou acredita que consumidor e cidadão são sinônimos? Não são. Tanto é assim que tem brasileiro com dois celulares, TV de plasma e iogurte na geladeira frost free, mas sem saúde, sem segurança pública e sem saber escrever um O com um copo.

* Malu Fontes é jornalista e professora de jornalismo da Ufba
Publicado Originalmente no Correio 24Horas

Post no Iraraense em 17-10-2013 16h31m

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