Feliciano: o jabuti trepado

Sim, todo mundo a essa altura já sabe que Marco Feliciano é um sujeito tão inverossímil quanto as estratégias criadas pela novelista Glória Pérez para suas tramas e seus personagens.

Post no Iraraense em 23-03-2013 16h14m

Há, no campo das anedotas políticas brasileiras, uma máxima que diz que jabuti não sobe em árvores. Assim, cada vez que um nome ocupa um determinado posto/cargo político sem que tenha talento ou méritos pessoais e profissionais para isso, cabe usar a frasezinha infame: “quando se vê um jabuti trepado, já se sabe. Ou foi enchente, ou mão de gente”. A máxima cai como uma luva para explicar o que aconteceu para a assunção da presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados pelo pastor Marco Feliciano (PSC-SP), fato que há quase um mês vem causando rebuliço não só na Câmara, mas nas redes sociais, no noticiário político e nas ruas de grandes cidades brasileiras, com passeatas e protestos articulados pela comunidade gay. Foi mão de gente.

Sim, todo mundo a essa altura já sabe que Marco Feliciano é um sujeito tão inverossímil quanto as estratégias criadas pela novelista Glória Pérez para suas tramas e seus personagens. Para começo de conversa, em se tratando do cargo máximo de uma comissão de direitos humanos, auto-explicativa já no nome, o sujeito soa como um despautério hiberbólico. É ultra mega conservador, racista auto-declarado (vide seus pontos de vistas registrados sobre os negros e a maldição da qual a África seria objeto por decisão celestial) e homofóbico até a última raiz não alisada do seu cabelo, hoje mantido modernoso graças a um punhado de cera líquida ali e uma escova inteligente acolá. Ou seria progressiva?

Mas, independentemente disso tudo e de, para tornar a trama ainda mais farsesca, o pastor ainda ter o desplante de tentar usar a seu favor o fato de autodeclarar-se metrossexual de primeira linhagem, portanto modernoso, antenado, a antítese do conservador, e de já começar a reivindicar o papel de vítima de rituais macabros (como ele nomina os protestos contra a sua presidência na Comissão), há que se perguntar: por que tão pouco se fala, se diz e se pergunta quanto às (des)razões que levaram um sujeito tão inadequado como Feliciano para um posto para onde desde sempre se soube que convergem temas tão caros à diversidade de reivindicações e à heterogeneidade de credos e movimentos?

Por que só depois, e muito depois, que grupos gays Congresso adentro e Brasil afora explodiram em barulho, pois nunca foram de levar desaforos para casa calados, foi que a classe política com mandato e da base aliada da presidente Dilma começou a se manifestar na imprensa sobre a inadequação de Feliciano para o posto se o imbróglio foi todo articulado e construído previamente nos bastidores da própria Câmara? Quem é mentiroso o suficiente agora para dizer que a companheirada toda e suas adjacências da base de apoio do Governo no Congresso não sabia quem era Marco Feliciano ou desconhecia o barro do qual é feito boa parte do PSC para entregar-lhe uma comissão de direitos humanos? É óbvio que Feliciano é um jabuti trepado na árvore da Comissão de Direitos de Humanos pela mão do PT, do PMDB e toda a tropa de elite do Congresso. Sozinho ele não subiu, portanto, deveria apanhar acompanhado.

Malu Fontes é jornalista e professora de jornalismo da UFBA.

Publicado originalmente no Correio 24Horas

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