GLOBO, RECORD E O COMÉRCIO DE FLUIDOS E SECREÇÕES

O que a televisão trouxe de novo durante a semana foi a consciência nacional de que o Brasil, por livre e espontânea vontade, se transformou em mercado para um tipo de comércio deplorável: o país é a praça emergente da compra e venda de fluidos e secreções de lixo hospitalar. Sim, o Brasil Já pode se anunciar como o país que compra sangue, pus, secreções e dejetos. Não demora e aparece algum defensor da tese de que tal prática merece elogios, por representar uma vanguardista estratégia criativa do brasileiro em favor da causa da reciclagem, tão em moda nos discursos dos antenados.

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Recentemente, o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, disse em público aquilo que muitas autoridades e poderosos vivem dizendo longe das câmeras e microfones. Referindo-se a matérias feitas pela Rede Record sobre acusações contra ele, Teixeira disse à entrevistadora, na revista Piauí, algo do tipo: “só vou ficar preocupado, ‘meu amor’, quando sair no Jornal Nacional”. No início da última semana, a Folha de S. Paulo, referindo-se à forma como a emissora dos irmãos Marinho está se comportando em relação aos jogos Pan-Americanos, fez uma pergunta que tem tudo a ver com a resposta de Teixeira: se uma árvore cai na floresta e a Globo não mostra, será que ela caiu? E se a principal rede de televisão do país dá mais espaço para a Stock Car e o showbol é porque esses “esportes” são mais importantes que o Pan?

O fato de a Rede Record deter os direitos de transmissão dos jogos e o modo como a Globo vem se referindo ao evento diz muito sobre o que leva o jornalismo e o telejornalismo a dar um maior, menor ou nenhum destaque à cobertura de um determinado assunto. Não, não é o interesse público e nem mesmo o interesse ‘do’ público que leva uma emissora a centrar fogo na cobertura de um assunto. É, e sempre será, é bom acostumar-se, o interesse comercial da emissora. Como não tem os direitos de transmissão do Pan, a Globo praticamente o ignora.

PRINCÍPIOS EDITORIAIS – A Controle da Concorrência, que monitora as inserções publicitárias em todas as emissoras, informa que no primeiro dia das competições do Pan a Globo deu ao evento apenas 28 segundos, somando o tempo usado para falar dos jogos em todos os programas jornalísticos da emissora. Em 2007, quando detinha os direitos de transmissão, a Globo dedicou nada menos que uma hora e 38 minutos no primeiro dia, somando o tempo dado em todos os seus noticiários. Os jogos são os mesmos, as medalhas e as derrotas para os atletas brasileiros continuam tendo o mesmo peso de sucesso e fracasso. O que mudou? Mudou apenas o dono do cofre onde caem as moedas advindas da venda das cotas publicitárias de patrocínio da transmissão do Pan. Se é a Record quem lucra com o evento, a Globo praticamente o ignora como fato.

Sim, só episódios assim para mostrar que não passa de mero efeito de merchandising de umbigo todo o barulho feito pela Globo para divulgar os Princípios Editoriais das Organizações homônimas, segundo os quais “jornalismo é o conjunto de atividades que, seguindo certas regras e princípios, produz um primeiro conhecimento sobre fatos e pessoas. Qualquer fato e qualquer pessoa”. O diabo se esconde é no que a linha editorial das organizações deve considerar como sinônimo de ‘certas regras’ e de ‘qualquer fato’. Pelo jeito como a TV Globo se comportou durante a semana, os Jogos Pan-Americanos de Guadalajara estão abaixo da categoria de ‘qualquer fato’ e muitos dos atletas brasileiros na competição estão abaixo de ‘qualquer pessoa’. A detenção dos direitos pela Record e a indiferença indisfarçada da Globo diante do Pan já levou as duas a trocarem sopapos verbais não apenas nos bastidores do jornalismo, pois não é do feitio da emissora do bispo falar da concorrente pelas costas. Fala e praticamente ameaça de processo diretamente da bancada dos seus telejornais.

PELEJA E PUS – A versão da Record é a de que, assim que comprou os direitos de transmissão do Pan, enviou a todas as concorrentes brasileiras, conforme determinam as regras internacionais de cessão de direitos de uso de imagens, um termo disponibilizando dois minutos diários dos jogos, o mesmo comportamento, diga-se, que a Globo adota nos eventos que são de transmissão exclusiva dela. Ainda segundo a Record, SBT, Rede TV!, Cultura, Gazeta, TV Brasil, Band Sports e Band News assinaram o documento. Sportv, ESPN e Band não responderam e a Globo respondeu que não tinha interesse. Nesse contexto, as imagens que todas as emissoras signatárias do documento veiculassem deveriam, obrigatoriamente, ser creditadas à Record, com a exibição na tela do logo colorido da emissora. Sim, o Jornal Nacional exibiu imagens sem o logo e deu-se a guerra. A Globo argumenta que recebeu as imagens de uma agência internacional da qual é cliente. A Record diz que é mentira e o bate-boca continua. O fato, no entanto, é que, com Pan ou sem Pan, a Globo não perdeu audiência e manteve-se na liderança.

Não deixa de ser interessante para o telespectador mais astuto descobrir que mais importante do que a notícia é o interesse publicitário em jogo por parte das emissoras de TV. Mas por isso não se arregala mais os olhos nem se perde o sono, sobretudo numa semana em que o assunto que mais marcou o telejornalismo nacional, além de mais um escândalo envolvendo um ministro, foi um espasmo literal de nojo, diante do qual a peleja Globo-Record é assunto de luxo de comadres. O que a televisão trouxe de novo durante a semana foi a consciência nacional de que o Brasil, por livre e espontânea vontade, se transformou em mercado para um tipo de comércio deplorável: o país é a praça emergente da compra e venda de fluidos e secreções de lixo hospitalar. Sim, o Brasil Já pode se anunciar como o país que compra sangue, pus, secreções e dejetos. Não demora e aparece algum defensor da tese de que tal prática merece elogios, por representar uma vanguardista estratégia criativa do brasileiro em favor da causa da reciclagem, tão em moda nos discursos dos antenados.

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 23 de outubro de 2011, no jornal A Tarde, Salvador/BA. maluzes@gmail.com

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