JAQUELINE RORIZ E O LADRÃO ESTREBUCHANDO

Se o povo, sempre muito bem intencionado e defensor da paz, acha que a polícia está autorizada a matar bandido sem chance de defesa e a ver com prazer um ladrão ‘estrebuchando’, por que o assaltante não pode achar razoável considerar que, se Jaqueline Roriz pode levar para casa uma sacola de dinheiro que não era seu sem sequer correr o risco de perder o mandato por isso, por que ele não tem o direito de ter a vida poupada por um policial que o flagra em um assalto?

 
Poucas expressões são tão mal entendidas e interpretadas quanto defesa dos direitos humanos. Quando a imprensa refere-se ao tema, o senso comum e boa parte dos próprios meios de comunicação fazem troça e a traduzem imediatamente como sinônimo de direito dos bandidos. Na última semana uma imagem que rodou o país, dos telejornais à internet e aos veículos impressos, trouxe mais uma vez à tona a posição ambivalente em que fica a imprensa quando se trata de abordar o assunto. Em cenas ocorridas já há algum tempo, mas só agora vindas a público, policiais tripudiam enquanto um assaltante agoniza. As imagens mostram um sujeito ferido, perdendo sangue e à beira da morte, caído no chão, enquanto os policiais, ao invés de socorrê-lo, optam pela atitude sádica de observá-lo, enquanto dizem coisas do tipo ‘vai, estrebucha’.

O contexto em que as imagens vieram à tona, era, inicialmente, o de abordar a atitude condenável de policiais de São Paulo que protagonizaram a cena, a quem, como representantes do Estado de Direito, cabe socorrer qualquer indivíduo sob condição de sofrimento. As imagens surgiram, portanto, a serviço da tese da defesa dos direitos humanos, como forma de ressaltar que as instituições policiais não podem repetir o comportamento dos criminosos, impingindo-lhes o mesmo tratamento que estes dão às suas vítimas, os cidadãos alvos da violência brasileira cotidiana. Mas uma parte considerável da sociedade que teve acesso ao episódio aprovou os policiais, criticou a imprensa pela denúncia e achou o sofrimento imposto ao ladrão algo do tipo pouco, bom e doce.

VINGANÇA – Na mesma semana em que vieram a público as imagens do assaltante estrebuchando sob o gozo do olhar policial, também foi veiculado na imprensa um episódio em que policiais encurralam um grupo que tentava assaltar um caixa eletrônico em São Paulo, deixando-os sem chance de defesa para se entregarem e sair vivos do assalto frustrado. Mais uma vez, a polícia foi acusada, sob a lógica dos direitos humanos, de provocar a morte dos assaltantes sem chance de defesa. Embora seja através da televisão que esses casos ganhem repercussão nacional, é na imprensa escrita, pela própria natureza dos meios, que é possível acompanhar a reação social diante desse tipo de fato.

As cartas de leitores publicadas em jornais impressos de circulação nacional mostraram durante a semana o tamanho do desafio da imprensa quando se trata de cobrir a violência cotidiana da qual todas as regiões do país são vítimas. O que parece ter se instaurado entre a imprensa e os consumidores de informação, que, são simultaneamente vítimas reais ou potenciais da violência noticiada, é uma equação doentia, sem meios termos, nenhum bom senso, grau de civilidade ou uma qualidade razoável de argumentos. Neste cenário, tem-se, de um lado, uma imprensa que praticamente louva a atitude policial em casos como estes citados e incita o cidadão à vingança e à defesa da pena de morte como forma de enfrentar a violência. Do outro lado, uma imprensa que, ancorada no Estado de Direito, denuncia os crimes cometidos por policiais que reproduzem em suas ações a violência do banditismo. Esta, no entanto, tem sido alvo de reações cada vez mais iradas de cidadãos, que a acusam de estar do lado dos ladrões. Ou seja, à imprensa que não assume o papel de juiz e não aponta o dedo, ela mesma, para o bandido, na condição de acusadora, empurrando-o para a tortura máxima e à morte o quanto antes, sobra o lugar de condenada, assemelhada, ela mesma, aos bandidos.

SACOLA DE DINHEIRO – Se a imprensa está dividida em duas, uma que denuncia policiais violentos, mesmo que esta violência seja praticada contra bandidos explicitamente em ação, e outra que, nos moldes dos programas policialescos que usam até helicópteros para perseguir imagens de ladrões em fuga, não se conforma com a inexistência no país da pena de morte, a audiência, os leitores, a sociedade, também repete esta divisão. Embora parte dos brasileiros que reivindicam para si o lugar de maior esclarecimento e formação educacional faça cara feia para a imprensa justiceira que saliva por não poder ela mesma prender, arrebentar e matar, é fato que muito mais gente adere à tese desta imprensa e cai de pau na outra, que denuncia abusos policiais. Esta vem perdendo o direito de falar em direitos humanos, pois tem sido reiteradamente acusada, por sua audiência, de ser uma defensora de bandidos, de fazer a opção pelos bandidos, quando deveria ficar ao lado da população e da polícia.

Enquanto a sociedade e a imprensa brasileira dividem-se deste modo, com o lado justiceiro cada vez mais numeroso e arregimentador de seguidores, na prática nada muda, a não ser, e para pior, o tamanho do medo que acompanha todo e qualquer brasileiro hoje. Do mesmo modo, enquanto a classe média faz suas articulações argumentativas e chega a determinadas conclusões, por que o banditismo também não haveria de fazer as suas, ora? Se o povo, sempre muito bem intencionado e defensor da paz, acha que a polícia está autorizada a matar bandido sem chance de defesa e a ver com prazer um ladrão ‘estrebuchando’, por que o assaltante não pode achar razoável considerar que, se Jaqueline Roriz pode levar para casa uma sacola de dinheiro que não era seu sem sequer correr o risco de perder o mandato por isso, por que ele não tem o direito de ter a vida poupada por um policial que o flagra em um assalto?

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado em 04 de setembro de 2011. Jornal A Tarde, Salvador.

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