MÉTODO ABORTIVO DE NOVELA

Do mesmo modo, todo mundo que tem mais de um neurônio sabe que muitas meninas bem ou mal nascidas, diante de uma gravidez indesejada, já recorreram, sim, ao aborto e continuarão recorrendo, seja seguro ou inseguro, mesmo com a prática sendo ilegal no país. (…) As novelas brasileiras, no entanto, consideradas por especialistas no assunto, daqui e de alhures, como detentoras de uma das mais sofisticadas técnicas de produção do mundo e também conhecidas pelo seu nível de realismo nas temáticas abordadas, continuam sendo o que são, um produto fluido que só chega perto de temas que não afastem o telespectador.

 

Insensato Coração chegou ao fim na última sexta-feira e, como a teledramaturgia, sinônimo de telenovela no país, há décadas assume no cotidiano e no imaginário dos brasileiros um papel praticamente paradidático, insinuando o que é certo ou errado, bom ou ruim, feio ou bonito, dois aspectos da trama chamaram atenção, principalmente em sua reta final: as abordagens do preconceito contra os homossexuais e da gravidez indesejada.

Do lado de cá da tela, todo mundo sabe que casais formados por pessoas do mesmo sexo existem e que de suas rotinas faz parte tudo aquilo que faz parte de qualquer relação amorosa: afeto, demonstrações públicas e privadas de carinho, beijo na boca, sexo e todo o resto do pacote, conflitos inclusive. Do mesmo modo, todo mundo que tem mais de um neurônio sabe que muitas meninas bem ou mal nascidas, diante de uma gravidez indesejada, já recorreram, sim, ao aborto e continuarão recorrendo, seja seguro ou inseguro, mesmo com a prática sendo ilegal no país. São milhões de mulheres que recorrem à prática e quem diz isso são os serviços públicos de saúde, onde de um jeito ou de outro vão parar as estatísticas de mortes ou sequelas graves em decorrência de abortos, sobretudo os feitos de maneira tosca, com gente que vive disso e não precisa dar garantia de bom atendimento.

TABU – As novelas brasileiras, no entanto, consideradas por especialistas no assunto, daqui e de alhures, como detentoras de uma das mais sofisticadas técnicas de produção do mundo e também conhecidas pelo seu nível de realismo nas temáticas abordadas, continuam sendo o que são, um produto fluido que só chega perto de temas que não afastem o telespectador. E o que os afasta da tela, comprometendo a audiência e mais ainda a receita publicitária da emissora? Em geral, temas morais, considerados tabus pela sociedade brasileira, pelo que se convenciona chamar de família tradicional, e assuntos que passem perto de questões religiosas, que descambam quase sempre, claro, de novo na moralidade.

Sabendo-se das limitações temáticas das telenovelas no terreno da moral, o telespectador de bom senso sabe que os autores têm limites até onde podem avançar e arriscar, o que não os livra de críticas às vezes ferozes e até injustas de grupos de defesa de determinados grupos sociais engajados na defesa de suas causas. Ou seja, a telenovela vai até um determinado ponto com alguma bandeira comportamental, mais precisamente até a fronteira em que determinado discurso, enquadramento ou abordagem pise nos calos dos tabus da sociedade brasileira. Não precisa dizer que aborto e homossexualidade são um olho nu e gritante no centro do universo de tabus nacionais. Não é à toa que os que cobram da telenovela algum comprometimento com a realidade façam coro exigindo, e esperando, das telenovelas a tal cena tão desejada que nunca veio: o primeiro beijo de língua gay entre um casal de homossexuais. Se for um casal masculino, melhor ainda. Para muitos defensores dos tabus, um beijo entre duas mulheres fica um pouco aquém do tabu e pode estar mais para fetichismo sexual.

Insensato Coração começou praticamente anunciando a realização da expectativa frustrada do beijo masculino gay. Tinha um dos maiores núcleos de homossexuais já visto numa novela e a trama carregava, a título de merchandising social, a bandeira do protesto contra a violência praticada com os homossexuais, por preconceito, fato corriqueiro no Brasil. No entanto, parece que os compradores de sabão fizeram saber à Globo que de jeito nenhum queriam ver essa ‘pouca vergonha’, e os autores principais da novela, Gilberto Braga e Ricardo Linhares, foram convidados pela direção da emissora a pisar no freio do chamego entre os meninos sarados do quiosque da trama. O que surpreende e espanta, no entanto, é que, o mesmo telespectador que, em tese, teria mandado avisar à Globo que a boicotaria se visse na tela dois homens se beijando apaixonadamente, parece ter enviado um pedido para ver gays sendo espancados e brutalmente assassinados, em cenas que parecem ter emocionado a audiência dos entabuados, a ponto de elevar o ibope. Lição: o brasileiro médio acha violento demais ver um beijo masculino na TV, mas acha muito emocionante ver um garoto apanhando até morrer de um bando de pit-boys. Foi ou não foi assim, Gilberto Braga?

FETO – E no final, para fechar com chave de ouro a ode aos entabuados do aborto. Uma das mocinhas boas e belas da trama, Cecília, que engravidara de um ficante mau caráter, que lhe embriagara para fazer sexo sem camisinha, jamais, claro, sequer cogitou longinquamente a possibilidade de um aborto. Ao contrário: demonstrou amor eterno ao feto desde que soube da concepção, a ponto de aceitar casar com o vilão para proteger a cria. Como o feto era de um mau caráter e a menina era boa e amava outro homem, esse também bom e puro, a criança seria um ruído difícil de ser engolido pelo telespectador no meio de tanta beleza, pureza e lisura de caráter. Como aborto não pode, foi preciso dar um jeito de arrancar o fetinho de um modo, diga-se, mais ‘bem aceito’ moralmente pela família brasileira compradora de margarina. E assim se fez: a autoria da obra mandou o pai mau caráter do feto dar umas porradas eficientes na mocinha. E era uma vez uma gravidez. Então, quem disse que mocinha de novela não pode abortar? Pode sim. É só escolher o método certo e moralmente adequado. A surra de um homem violento é uma opção completamente aceitável pela audiência.

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 21 de agosto de 2011, no jornal A Tarde, Salvador/BA. maluzes@gmail.com

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