MORRER NA PRAIA

A moral dos dois fatos e das repercussões noticiosas que norteiam os dois casos é: os mais pobres devem evitar a passarela do shopping para fugir do risco de serem mortos por seguranças ou assaltados por ladrões e os turistas e banhistas devem evitar as praias de Salvador a qualquer custo, pois, abandonadas, sem infra-estrutura e sem segurança, podem ser um convite à morte pela violência. Não, ninguém quer morrer na praia. O programa seguro que parece restar é bancar o voyeur diante dos veículos de comunicação consumindo as mais novas estripulias sexuais e amorosas do prefeito da cidade.

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Duas mortes, dois assassinatos, ocorridos em um intervalo de menos de uma semana, em Salvador, traduzem o cenário de convulsão social e de insegurança em que a cidade e seus moradores vivem mergulhados. Tarsis Santos Lima, 17 anos, assassinado no dia 02 de março na Passarela de um shopping enquanto se deslocava para trabalhar; Natália Penhalosa Duarte, 19 anos, assassinada com um tiro na cabeça, no dia 06 de março, por um assaltante na praia. Na TV, a propaganda oficial do Governo Federal diz há algum tempo que “país rico é país sem pobreza”. Não, ninguém há de questionar que o Brasil ainda tem e terá por muito tempo bolsões gigantescos de pobreza, apesar das transformações, para melhor, em termos de desenvolvimento econômico também decantadas dia sim e outro também nos telejornais que anunciam a chegada de muitos ex-pobres ao paraíso, chamado agora de Classe C.

Entretanto, o que a cobertura diária da imprensa e menos ainda da TV não dá conta é de esmiuçar as distâncias abissais que parecem ir se constituindo entre essa melhoria de vida da população e o crescimento assombroso dos índices de violência, sobretudo homicídios e latrocínios, em algumas grandes cidades brasileiras. E Salvador está entre os casos de destaque. Por mais que a TV, até por razões comerciais de sobrevivência, anuncie uma Bahia linda e eternamente sustentada numa tal magia que cada vez parece só funcionar na tela e com trilha sonora impecável, como convencer, hoje, sem recursos imagéticos e efeitos especiais, apenas no gogó, um turista a optar por Salvador para uma temporada?

FACÃO – O sistema de transporte inexiste, a cidade é mal cuidada, as opções de lazer só mínguam e parecem restringir-se ao Carnaval e a quem gosta de axé, ir ao Centro Histórico é uma sessão de luta corporal com vendedores e pedintes inconvenientes e grosseiros e ir à praia se tornou um comportamento de alto risco. O que parece um vendedor de cocos revela-se um assaltante armado com um facão ameaçando decepar mãos e cabeças de banhistas ao assaltá-los e usar uma máquina fotográfica ou um celular é um pedido explícito para receber um tiro no meio da testa. Qual o conceito de turismo numa cidade mergulhada neste contexto? Se assim, logo um slogan do tipo “venha a Salvador e ganhe uma chance de morrer na praia” fará mais sentido do que convidar um turista para um passeio no Abaeté. Aliás, quem se atreveria?

VOYEUR – Quanto ao assassinato do, no ou nas imediações do shopping, o retrato da barbárie que o circunda é o mesmo que traduz a da praia. O que o motivou, diz-se, teria sido a tentativa de ‘seguranças’ das imediações de impedirem um assalto a uma mulher na passarela que dá acesso ao estabelecimento, coisa corriqueira no local, também se diz. Em reação a um desses episódios, ‘homens de preto’ teriam atirado a esmo e matado Tarsis Santos, vendedor de milho e a uma semana de alistar-se no Exército. A moral dos dois fatos e das repercussões noticiosas que norteiam os dois casos é: os mais pobres devem evitar a passarela do shopping para fugir do risco de serem mortos por seguranças ou assaltados por ladrões e os turistas e banhistas devem evitar as praias de Salvador a qualquer custo, pois, abandonadas, sem infra-estrutura e sem segurança, podem ser um convite à morte pela violência. Não, ninguém quer morrer na praia. O programa seguro que parece restar é bancar o voyeur diante dos veículos de comunicação consumindo as mais novas estripulias sexuais e amorosas do prefeito da cidade.

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 11 de março de 2012, no jornal A Tarde, Salvador/BA; maluzes@gmail.com

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