NOSTALGIA, SAUDOSISMO E PRAGMATISMO

Como os saudosistas e melancólicos dos carnavais cujos formatos não voltam não têm bala na agulha para mudar a engrenagem do Carnaval como parecem desejar e as autoridades incumbidas de formular políticas culturais públicas para o Estado e para cidade estão mais preocupadas é com o abadá colorido que ganham de brinde da artistagem cinco estrelas, se há atores sociais capazes de mudar o Carnaval, seja lá o que isso signifique, são os donos do negócio: os artistas mais poderosos, os empresários de blocos de trio e os patrocinadores, cujo poder de fogo está concentrado basicamente nas cervejarias. E como perguntar não ofende… Por que esses segmentos estariam interessados em fazer um Carnaval muito diferente desse que está aí se esse modelo está a anos luz de dar prejuízo?

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O tempo passa, o tempo voa e o Carnaval de Salvador, contrariando os prognósticos dos pessimistas, continua numa boa. Todos os anos, nos meses, semanas e dias que antecedem a festa, os pessimistas começam a espalhar seus diagnósticos de corvo, sempre ancorados na tese de que será uma carnificina de violência, coisa de deixar os bárbaros com complexo de inferioridade. Para sorte geral de todos, costumam errar feio. Esse ano, a campanha do medo ganhou contornos colossais e não foi por falta de razão. A greve da Polícia Militar deixou um rastro de quase 180 mortos. Em qualquer cidade do mundo que não esteja em guerra, esse é um número assustador.

Na televisão, uma outra cantilena também se repete, embora com um outro roteiro. A maioria dos artistas estrelados promete novidade do tipo reinventar a roda, as personalidades mais rodadas e com vez e voz na imprensa parecem sofrer de uma dor crônica por não terem mais as festas seguras e perfumadas do Baiano de Tênis e sempre há alguém defendendo um projeto maravilhoso de um carnaval democrático, onde todos voltem a ser pierrôs e colombinas numa avenida sem mijo e violência. Sente-se muito, claro, mas o passado não se reinventa e projetos que tais nunca sairão do papel, pois quem os defende só tem um elemento, que, em tempo de indústria cultural, pouco ou nada vale: o desejo.

ARTISTAGEM – Como os saudosistas e melancólicos dos carnavais cujos formatos não voltam não têm bala na agulha para mudar a engrenagem do Carnaval como parecem desejar e as autoridades incumbidas de formular políticas culturais públicas para o Estado e para cidade estão mais preocupadas é com o abadá colorido que ganham de brinde da artistagem cinco estrelas, se há atores sociais capazes de mudar o Carnaval, seja lá o que isso signifique, são os donos do negócio: os artistas mais poderosos, os empresários de blocos de trio e os patrocinadores, cujo poder de fogo está concentrado basicamente nas cervejarias. E como perguntar não ofende… Por que esses segmentos estariam interessados em fazer um Carnaval muito diferente desse que está aí se esse modelo está a anos luz de dar prejuízo?

Neste sentido, a televisão, na transmissão do Carnaval, é mais ilustrativa do modo como as coisas funcionam do que no jornalismo cotidiano. Coisa rara é ver, seja na transmissão da própria festa ou nas edições dos telejornais das emissoras no período, alguém reclamando ou insatisfeito. Diante dos debates que costumam acontecer sobre os rumos da festa nos dias que a antecedem e logo após o término, há de se perguntar: onde estão os insatisfeitos entrevistados nas ruas com o formato da festa? Parece ser mais difícil uma emissora de televisão encontrar um deles do que um mortal comum encontrar-se com alguém que tenha em casa um aparelhinho do Ibope, desses que medem a audiência.

ENCURRALADAS – E por falar em formato, quem está no sal diante do Carnaval e sua transmissão são as emissoras de TV. Com o surgimento e o crescimento do You Tube fica cada vez mais claro que as emissoras terão que se reinventar para transmitir a festa, encurraladas que estão em formatos há muito engessados. Ora com gente da cidade que parece amigo íntimo dos artistas mandando beijinho ou quase pedindo, ora importando elencos célebres do Rio-São Paulo que, se por um lado podem alavancar a audiência, por outro dizem coisas capazes de causar vergonha alheia na audiência local. Mas, quem se importa. As quartas-feiras de cinzas estão aí para mostrar que todos saíram ganhando.

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 26 de fevereiro de 2012, no jornal A Tarde, Salvador/BA; maluzes@gmail.com

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