NUNCA ANTES NA HISTÓRIA DESTE PAÍS…

Como “nunca na História deste país” houve uma mulher na Presidência da República e ainda calhar de esta ser solteira, ou seja, sem a versão do cavalheiro que ocuparia o equivalente doméstico das primeiras-damas, supõe-se que espaço para as aparições de Dilma-mãe no circo da mídia que cobre o poder, não faltará.

Publicação Original em 03/01/2011 17:27

A partir desta semana, uma personagem inusitada na cena política recente passará a circular, independentemente de sua vontade, no palco do poder nacional: a primeira-mãe, Dilma Roussef, uma senhorinha fluminense fina, elegante, bem vestida e nos trinques, muito da bonitinha para seus 86 anos e aparentemente discreta. Sim, Dilma Roussef, a verdadeira Dilma, pois a outra, a presidente da República, a primeira mulher a ocupar esse cargo no país (e não venham com a tese imbecil da Princesa Isabel em seus dias de princesa), já foi devidamente colocada no lugar nominal pela própria primeira-mãe: “A verdadeira Dilma Roussef sou eu. A outra é Dilminha”. Dona Dilma tem tudo para se tornar uma personagem televisiva e tanto.

Sim, José Sarney, quando presidente, tinha mãe viva, Dona Kiola, e Fernando Collor também, Leda Collor, que acabou sucumbindo a um derrame, ao coma e à morte diante das fortes emoções vividas com a tempestuosa descida ribanceira abaixo do filho insolente que anunciava ter o saco roxo. Mas, como a figura doméstica de fundo dos presidentes da República são as primeiras-damas, a discrição de Dona Marly Sarney e a breguice espalhafatosa e dentuça de Rosane Collor nunca deixaram um espacinho sequer para as duas mães acima citadas, a não ser quando adoeceram e morreram, já fora do tempo de poder dos respectivos rebentos.

MITO E GADJETS – Como “nunca na História deste país” houve uma mulher na Presidência da República e ainda calhar de esta ser solteira, ou seja, sem a versão do cavalheiro que ocuparia o equivalente doméstico das primeiras-damas, supõe-se que espaço para as aparições de Dilma-mãe no circo da mídia que cobre o poder, não faltará. Como a presidente tem uma filha única e esta reside em Porto Alegre, o protagonismo da primeira-mãe no Planalto tem tudo para ser um fato corriqueiro na imprensa nos próximos anos.

Após oito anos no poder e deixando-o com índices de popularidade que se aproximam da unanimidade, a estrela onipresente da semana televisiva foi Lula. Para além e aquém da empatia estrondosa junto à população ou da ojeriza que continua a causar em sua dúzia de ferozes detratores, é fato que, como personagem e mito, ‘nunca antes na História deste país’, para usar o seu bordão mor, houve um presidente-personagem como Luís Ignácio Lula da Silva, seja pela própria natureza ímpar de sua trajetória pessoal, seja pelo oportunismo histórico de estar no poder num tempo sócio, econômico e cultural em que a tecnologia dobrou uma esquina espetacular do mundo, revolucionando, amplificando e imortalizando indefinidamente a publicização, através de gadjets do mais sofisticados aos mais baratos, tudo o quanto é fala, palavra escrita, imagem, deslize, gafe, tragédia, comportamento, ato e performance, beneficiando em alta escala o volume de registros midiáticos do presidente que veio literalmente do povo.

Não fosse a Internet, as redes sociais, os blogs e os celulares que registram, capturam, espalham e exacerbam os debates e comentários sobre tudo, o personagem Lula seria o mesmo, e do mesmo tamanho, mas não se pode dizer o mesmo de sua repercussão na cultura de massa e das leituras míticas e messiânicas que parte da população fez e faz dele. A midiatização do fenômeno Lula foi tamanho que os setores da imprensa que passaram oito anos lhe apontando defeitos, afirmam sem dó nem piedade, nos últimos balanços que fazem do seu governo, que sua gestão não passou de mais do mesmo debruçada sobre os louros do Plano Real, de Fernando Henrique Cardoso, e sustentada preponderantemente na repetição aos quatro ventos de uma reputação triunfalista de um Lula mítico ungido pela máquina de propaganda do Palácio do Planalto.

AEROLULA – Na prática, as circunstâncias sócio-econômicas foram tão dadivosas para alavancar o mito Lula que até mesmo na última semana antes de apeiar-se do poder, no apagar das luzes do mandato, a economia brasileira experimentou uma avalanche de consumo jamais vista no Natal e Ano Novo, registrando um aumento médio de vendas superior a 40% em relação ao ano passado. Enquanto as velhas e as novíssimas classes consumidoras gozavam as delícias da ida às compras sem medo de endividar-se, Lula, confortavelmente instalado na persona do salvador dos mais pobres, escalava, a bordo do AeroLula, os cinco cantos do país, incorporando o ídolo das massas despedindo-se dos súditos entre lágrimas, agradecimentos, confissões intimistas acerca da solidão imposta pelo poder e falando pelos cotovelos, sempre na língua do povo.

Para coroar a troca de poder entre Lula e a filha da primeira-mãe Dilma Jane, a marca da emoção foi exacerbada pela fragilidade da saúde de um outro mito construído ao longo deste governo: o vice-presidente e sua resistência férrea a uma via crucis marcada por um câncer que nunca cessou e o levou a submeter-se a 17 cirurgias de grande complexidade e um sem fim de sessões torturantes de quimioterapia. Se alguém deste governo merecia cenas privilegiadas na festa cívica da rampa do Palácio do Planalto que sucedeu Lula com Dilma, era José de Alencar, o amigo Zé de Lula.

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado em 02 de Dezembro de 2011 no jornal A Tarde, Salvador/BA. maluzes@gmail.com

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