O biquíni de Betty Faria e o efeito manada

Uma parcela nada desprezível de leitores de notícias on line ou com perfil em redes sociais parece sentir-se à vontade para reivindicar ou defender teses que deixariam os nazistas do passado constrangidos.

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São inegáveis os usos, os benefícios e a amplitude de informações proporcionados pela internet. Mas como nada na vida é totalmente bom ou totalmente ruim, há uma onda de ódio cada vez mais manifestada pelos usuários de computadores conectados, independentemente de classe social, idade ou sexo, capaz de arregalar os olhos de quem se dá o trabalho de observá-la. Em todos os lugares do mundo sempre haverá pessoas dizendo e pregando coisas impensáveis sobre o próprio semelhante, mas, trazendo o fenômeno para a internet, nunca se viu tanta gente confundindo liberdade de expressão com apologia ao ódio e ao preconceito.

Mobilizados em grande parte pela violência urbana que cresce em proporções indescritíveis no Brasil, uma parcela nada desprezível de leitores de notícias on line ou com perfil em redes sociais parece sentir-se à vontade para reivindicar ou defender teses que deixariam os nazistas do passado constrangidos. E embora a violência noticiada seja, sim, um elemento motivador para que se escreva todo o tipo de apologia ao ódio, é bom lembrar que ela não é nem de longe o elemento mais fomentador dessas manifestações agressivas. O mesmo se dá diante de notícias relacionadas a aborto, sexo, homossexualidade, minorias sociais e velhice, entre outros temas. E mesmo que diante de denúncias de sofrimento de pessoas nesses contextos.

Esta semana, por exemplo, bastou a atriz Betty Faria aparecer na imprensa de biquíni, na praia, questionando por que não pode usá-lo aos 72 anos, que comentários em todos os veículos que publicaram a notícia explodiram em agressões contra a atriz, reduzida, no mínimo, a uma velha ridícula. Ora, e por que mesmo ela não pode usar biquíni, se homens com a mesma idade e até muito menos não são objeto de nenhum xingamento se saem por aí se banhando em público com suas barrigas, banhas e pelancas descomunais? Há uma semana, um índio foi morto e outro gravemente ferido em um conflito com a Polícia Federal numa desocupação de terras no Mato Grosso do Sul. Os comentários dos leitores eram de uma apologia ao ódio contra índios que custa a crer que pessoas em pleno gozo da saúde psíquica sejam capazes de fazê-los. Quanto ao que sobreviveu, era chamado de carnissa (sic) e não são poucos os que desejam que o rapaz fique “pelo menos paraplégico”, graças ao tiro que levou. O argumento para tamanho ódio era o de que índios são uma escória social, uma espécie de seborreia do país sustentada por pessoas de bem, essas que postam tais barbaridades na web.

Esse comportamento tem nome: efeito manada, em que pessoas se valem da companhia de pares que sozinhos são covardes para em grupo ofender sem pudor. Mayara Petruso, a mocinha paulista que pregava a morte de nordestinos afogados nas enchentes de São Paulo porque elegeram Dilma Rousseff, é fichinha depois de tudo o que veio depois. Até mesmo um promotor de Justiça juntou-se à e-manada esta semana e, sobre os manifestantes na Avenida Paulista contra o reajuste da tarifa de ônibus afirmou numa rede social que se a Tropa de Choque os matasse, ele, promotor, arquivaria o inquérito. Em Salvador, uma manifestação de estudantes na Paralela levou a comentários do mesmo naipe: vagabundos, desordeiros, vândalos e que tais. Num artigo escrito há um ano, o jornalista Luciano Trigo deu o diagnóstico desse tipo de comportamento: as redes sociais estão se tornando veículo para perigosos rituais de justiça sumária e linchamento virtual por parte de uma e-massa exercendo um e-poder. Sem pudor algum.

* Malu Fontes é jornalista e professora de Jornalismo da Ufba
Texto enviado pela autora e originalmente publicado em Correio 24Horas

Post no Iraraense em 11-06-2013 12h29m

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