O fino toque do agogô

-Não teve camelo esse ano. Nem tigre, nem elefante. Vou procurar saber o porquê.

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Publicaçaõ original em 03/03/2012 18:07
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-Tio, cadê o camelo?

Domingo de carnaval, Campo Grande, 20:30. Aquela criança de branco, presa ao pai por uma faixa azul amarrada no braço me pergunta com a sagacidade pueril que só os bêbados e petizes desferem nesses momentos. Dentro do meu turbante, a cachola trabalhou na velocidade que a mistura de álcool inebriado pelo doce aroma da alfazema permitia. Difícil precisar meu tempo de resposta.Ela saiu. Trôpega como minha convicção:

-Não teve camelo esse ano. Nem tigre, nem elefante. Vou procurar saber o porquê.

A curiosidade do párvulo só reacendeu a dúvida que me atormentava desde o início do desfile. Cadê o diabos do elefante? A alegoria que ficava a frente do trio era ponto de referência para encontrar a minha patuscada. “A gente se reúne na bunda do elefante”, alertava meu primo. “Melhor na bunda que na tromba” zombeteava em resposta. Sem elefante, sem tigre, sem camelo [na verdade era dromedário], sem o pôster gigante de Raimundo Queirós [o sósia de Mahatma que morreu em 2006] era complicado encontrar alguém da turma naquele tapete branco de oxalá. Isso nem o mais importante. Era só mais uma faceta do processo de descaracterização do afoxé. Um processo que se consolida a cada carnaval.

“Afoxé não é escola de samba. Não é trio elétrico. Não é frevo. Não é marcha. É afoxé” vaticina Gilberto Gil. Esse conceito talvez esteja tão ultrapassado quanto o próprio Gil, pelo menos na visão diligente de Daniela Mercury. A administração do Gandhy, entretanto, se esforça para adequar o bloco ao modelo do carnaval. “Não temos mais espaço no bloco para as alegorias. Precisamos de pessoas para empurrar os carros e isso dificulta a movimentação” me explicou na terça feira, pouco antes do início do desfile, o professor Agnaldo Silva – presidente do bloco há mais de uma década.

Durante a administração de Agnaldo muitas mudanças foram implementadas, o que abalou o prestígio dele com os associados mais antigos. “Uma palhaçada essa ala de dança na frente do bloco. Pra quê isso? Nunca teve isso! Isso são filhos de diretores querendo aparecer” esbravejava um senhor, 29 carnavais dançando ijexá na avenida.

A saída do bloco na terça de carnaval teve discurso acalorado antes de soarem os clarins. Um diretor prometia providências para acabar com as “cortesias”. Isso porque parte das fantasias são subsidiadas por incentivo do governo para baratear o custo. No entanto essas fantasias são distribuídas entre membros da diretoria que vendem a fantasia fora da sede. Isso diminui a associação de novos membros, inflaciona o preço do carnê e permite cada vez mais a participação de foliões que não conhecem o caráter sócio-cultural da associação. No bloco esse ano tinha até prefeiturável – um sinal claro de mau agouro.

Bastões infláveis coloridos manchando o tapete branco, carro de apoio vendendo cerveja do patrocinador [antes era proibido uso de bebida no bloco], desfile no circuito da Barra, são algumas das mudanças que o bloco sofreu durante a atual administração. Adequação à nova ordem em contraponto a tradição.

Por isso é difícil exigir algum tipo de respeito por parte dos artistas. Bell não pode esperar o afoxé passar, Ivete cola a corda no bloco da frente para não dar espaço e Daniela fica na Barra para não esperar o Gandhy tocar por sete horas – mesmo que seu último grande sucesso tenha sido uma música que faz referência ao bloco. O que faz o Gandhy então? Sobe a Carlos Gomes em hora e meia, num ijexá elétrico, antecipa sua saída para não atrapalhar os horários e se assemelha cada vez mais a um bloco qualquer. Até os cânticos em iorubá e nagô vão sendo substituídos por músicas atuais.

“Em uma assembléia de animais, um macaco se levantou e pôs-se a dançar. Sua dança agradou a todos e não faltaram elogios. Invejoso, o camelo quis também fazer sucesso. Levantou-se e pôs-se a dançar. Mas suas contorções indignaram os animais que o expulsaram a pauladas.”*

Descobri garoto. O camelo tá dançando.

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