O LADRÃO DE COBRE

O homem (depois identificado e preso graças às imagens) sai do cenário do crime após conseguir o intento, carregando uma rodilha de metros de fio sob o braço, numa bicicleta. Todo o tempo sabendo-se filmado e nem por isso interrompendo o ato criminoso, à saída dirige-se para a câmera e desafia o cinegrafista com ar provocativo: “Pode filmar. Sou ladrão, roubo cobre. Pode continuar filmando. Não roubo pai de família, só cobre. Depois manda meus 20% da imagem, viu?”.
Publicação original em 18/01/2011 13:37

As cenas televisivas mais marcantes da semana foram as torrentes de água, terra e lama desmanchando boa parte das cidades serranas do Rio de Janeiro (Teresópolis, Petrópolis e Nova Friburgo), somando, até a manhã de quinta-feira, mais de 350 mortes confirmadas. No entanto, antes de essa tragédia acontecer, uma cena brasileira exibida na TV merece reflexão, como tradução de uma certa (i)moralidade nacional que se espraia, cada vez a passos mais largos. Na ultima terça-feira, um repórter cinematográfico da Rede Globo registrou, com requintes de detalhes, um homem, em plena luz do dia, na Ponte da Freguesia do Ó, em São Paulo, quebrando com golpes de picareta a mureta da ponte para roubar fios de cobre da rede de iluminação pública.

O homem (depois identificado e preso graças às imagens) sai do cenário do crime após conseguir o intento, carregando uma rodilha de metros de fio sob o braço, numa bicicleta. Todo o tempo sabendo-se filmado e nem por isso interrompendo o ato criminoso, à saída dirige-se para a câmera e desafia o cinegrafista com ar provocativo: “Pode filmar. Sou ladrão, roubo cobre. Pode continuar filmando. Não roubo pai de família, só cobre. Depois manda meus 20% da imagem, viu?”. Com as devidas adaptações argumentativas, o fato é que o ar superior e de desafio do ladrão e sua quase lição de moral apresentada à câmera, ao contrapor o roubo de fios a assaltos a pais de famílias, não difere muito das reações da maioria dos pequenos e grandes infratores brasileiros, de todos os tipos e de todas as classes sociais, que, quando flagrados cometendo atos ilícitos, costumam ter na ponta da língua uma justificativa para atenuar suas infrações.

PIRATARIA – O contingente de desonestos brasileiros, que, diga-se de passagem, parece estar tornando-se maioria, parece ter corticalizado que desonestidade mesmo é somente aquilo que é praticado pelo outro, o distante deles, preferencialmente as pessoas da classe política. Veja-se, como exemplo, a avalanche de notícias que se vê e lê sobre os políticos moralmente linchados por corrupção e o quanto o mesmo linchamento é esquecido de ser aplicado na mesma medida e intensidade contra a classe empresarial, cujo dinheiro é o que compra a abertura das portas políticas. De forma subliminar, o senso comum parece partir da prerrogativa de que os empresários estão em seu direito de serem corruptos, corruptores e desonestos para obter vantagens, enquanto quem deve ser enviado para os porões do purgatório são apenas as classes políticas. Sim, a sociedade brasileira é de uma hipocrisia e de uma leniência com o empresariado corrupto que beira a admiração.

Brasileiros de todas as classes sociais, sobretudo da classe média, que não vive sem seu pacote de jeitinhos para se dar bem, decidem todos os dias que desonestos são os outros. Eles próprios são apenas espertos que se viram para garantir uma vida mais digna às suas famílias. Argumenta-se, sempre, com o batido discurso da vítima da falta de oportunidades lutando para sobreviver com os métodos que pode. Dos pobres que vivem da pirataria, da venda de produtos roubados ou contrabandeados, aos grandes empresários que sonegam impostos, a tese da atenuação da desonestidade é um mantra comum aos dois segmentos sociais: “eu poderia estar matando, eu poderia estar roubando, mas, não; estou apenas fazendo alguma coisa para sobreviver e colocar comida em casa; estou apenas me defendendo de um Estado parasitário que esfola o empresário com o abuso de impostos”.

Desonestos mesmo, segundo o senso comum (conservador, reacionário e dotado de um punhado de argumentos tortos herdados da direitona iletrada e patrimonialista), são os Sarneys, os Malufs e outros que tais. Vá perguntar ao ladrão de cobre se ele é criminoso. Ele está convencido de que não, pois, como explicou, não rouba pais de família. Dirá ser apenas um cidadão sem oportunidade lutando pela sobrevivência. Mas, pergunte sua opinião sobre os senadores, deputados… No Brasil, a ideia é sempre esta: safar-se apontando o dedo acusador para o outro, de um modo tal que o país parece ter instaurado na moralidade pública e na ética social um novo tipo de padrão de comportamento: a honestidade relativa. É-se honesto, desde que alguém, à frente, atrás ou ao lado, cometa um ato um tantinho só mais criminoso do que o cometido por quem é acusado de algo ilícito. Nessa contemporização relativizada da imoralidade e da desonestidade, a sociedade vai se esgarçando de tal modo que todos desconfiam de todos.

APOCALIPSE – Sobre o Rio, a natureza geológica e geográfica das cidades serranas destruídas pela fúria da natureza, torna mais difícil, desta vez, as acusações políticas nos moldes que se fez, no ano passado, à Prefeitura de Niterói, quando da tragédia do Morro do Bumba. Nova Friburgo, por exemplo, foi fincada num vale entranhado entre duas montanhas e com um rio cortando-a ao meio. E não foi construída ontem. Teresópolis e Petrópolis já eram o xodó de D. Pedro no Império e, desde então, sobe-se a serra não apenas para morar, mas para casas de campo de férias. Falar em ocupação desordenada e irregular, nestes casos, já não basta, mesmo porque áreas de matas intocadas caíram junto com mansões em terra plana e com casas precárias em encostas.

Há equívocos na ocupação dos morros do século XIX para cá? Sim, mas nenhum passível de personalização e de atribuição a uma gestão pública específica. É mais um padrão urbano brasileiro do improviso sobre a natureza. Se há erros contra a natureza, são literalmente erros seculares e com responsabilidades pulverizadas a perder de vista, coisas que vem da época de D. Pedro, quando a natureza não era temível e mudanças climáticas eram tão prováveis quanto o apocalipse. Hoje, sabe-se, essas mudanças obrigarão as sociedades que sempre agiram apoiadas no improviso a redefinir à força seus modos de ocupação da natureza.

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado em 16 de Janeiro de 2011 no jornal A Tarde, Salvador/BA. maluzes@gmail.com

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