O silêncio dos cantantes

Em Salvador, e sobretudo nas castas dos famosos, o exercício da crítica é algo proibido. Aqui, se não for para elogiar, a artistagem cantante prefere silenciar ou ficar no rame-rame de suas gracinhas onomatopéicas sobre os palcos, naquela linguagem a la Pé de Pranta. Né, pai? Simbora mais eu, vu?

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A apenas dois dias do fechar das urnas do primeiro turno (assim indicam as pesquisas) para a eleição de um novo prefeito, Salvador mantém-se trôpega, decrépita, insegura e malcheirosa, características que a têm marcado nos últimos anos. E é certamente nessa condição, independentemente de quem tome posse em janeiro de 2013, que chegará ao seu 464° aniversário, pois nem milagre será capaz de promover em apenas dois meses um banho de ordem, civilização e de alguma estética numa cidade dessa dimensão e no estado em que se encontra.

Como é de praxe, deverá ganhar de presente de aniversário uma festa de largo decadente, animada pelo supra sumo das estrelas cantantes da terra que nadica de nada fizeram com seus gogós de ouro para, no mínimo, constranger nos últimos oito anos, a manada de poderosos que fizeram a cidade chegar aonde chegou. Aliás, aonde não chegou. Sim, nesses últimos anos em que Salvador mergulhou na feiúra e na incompetência administrativa, sem rédeas e a passos largos, quais foram as grandes ou minúsculas estrelas da música baiana com poder de voz entre o público e acesso livre à imprensa que usaram seus tacos e sua fama para fazer qualquer crítica explícita ao poderosos de plantão? Em Salvador, e sobretudo nas castas dos famosos, o exercício da crítica é algo proibido. Aqui, se não for para elogiar, a artistagem cantante prefere silenciar ou ficar no rame-rame de suas gracinhas onomatopéicas sobre os palcos, naquela linguagem a la Pé de Pranta. Né, pai? Simbora mais eu, vu?

Agora, aos 47 do segundo tempo, em que Inês não apenas é morta, mas já cremada, e a população sequer tem indícios concretos de que ainda há alguém despachando no principal gabinete do Palácio Thomé de Souza, não adianta neguinho famoso entrar em cena dizendo cobras e lagartos. Agora, o timing já se foi. E antes que o politicamente correto caia de pau na expressão ‘neguinho’, o que fiz foi tão somente pegá-la emprestada da linguagem popular e da canção, linda, por sinal, de Caetano feita especialmente para o disco novo de Gal. E por falar nos dois, o termo cantantes do título restringe-se tão somente à safra da novíssima música baiana, enriquecida e entronada na fama na era do império do axé e do pagode.

Se é verdade que todo artista popular tem que ir aonde e onde o povo está, não só para cantar, neste caso específico, mas também para servir de porta-voz das angústias de sua gente, aqui em Salvador se produziu nos últimos anos uma safra diferente de artistas. Para estes, apontar os erros de Salvador ou o dedo pra a cara dos responsáveis pelas mazelas da cidade, equivale a atrapalhar seus negócios e diminuir o fluxo do cofrinho, já que uma das moedas mais poderosas dessa corporação carnavalesca é a ideia, hoje mais falsa que uma nota de R$ 15, de que Salvador, a terra do melhor carnaval do mundo, é uma cidade feita de pura magia (e haja clichê), alegria e sinônimo da felicidade. Aonde!?

Malu Fontes é jornalista e professora de jornalismo da UFBA.
Texto publicado no Correio*, Salvador, 05 out. 2012, pag. 02

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