OS ESTRESSADOS E AS VÍTIMAS

Na imprensa nacional, seja nos jornais ou na televisão, pouco se fala e mostra sobre o quão despedaçadas ainda estão as vidas dos sobreviventes, alguns vivendo até hoje como zumbis, duas ou três vezes vítimas. Primeiro, vítimas da falta de planejamento urbano de prefeituras populistas omissas que tudo permitem, até construir sobre cursos de rios e em cima de pedras. Depois, vítimas do imponderável que foi a precipitação pluviométrica recorde no período tão curto e numa região de solo tão específico. E, finalmente, o imperdoável do imperdoável: vítimas de gestores que desviam dinheiro público destinado para reconstruir as cidades e parte da vida das pessoas para cortar caminho rumo ao enriquecimento. Um dos prefeitos da região, meses após a tragédia, foi espairecer em Paris. Argumentou que estava estressado.

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Pelos telejornais, chega todos os dias, para a maioria dos brasileiros, apenas um pequeno balanço dos desmandos que ocorrem nos bastidores do poder. Sabe-se que o que chega a se transformar em falas, imagens e documentação na televisão, e na imprensa de modo geral, é tão somente uma crosta superficial, fruto, quase sempre, da insatisfação de alguém envolvido em um esquema de desvio de recursos ou beneficiamento ilícito. Por alguma razão, um dos atores sociais do imbróglio sente-se prejudicado e resolve jogar no ventilador. Dificilmente há uma semana em que não seja veiculada nos telejornais uma denúncia de ‘mal feito’ envolvendo algum órgão público.

DESONESTO – Do mesmo modo, a cada ano sucedem-se na tela imagens apocalípticas de sucessivas tragédias brasileiras, todas elas, de algum modo, representando, sim, as consequências avessadas da corrupção, do desvio de dinheiro público, da omissão dos governantes. Se a TV noticia a cada final de ano ou em todos os pós-feriado uma montanha de corpos mortos e feridos no trânsito, se as retrospectivas noticiosas a cada ano dão conta de milhares de assassinatos, assaltos e latrocínios, se o número de crianças e jovens analfabetos é vergonhoso, o que está no fundo da explicação para isso tudo senão o fato de que, quem tem poder para começar a mudar as coisas, privilegiar a ascensão da vida financeira privada, sob os cofres públicos?

Entre as maiores tragédias vistas pelo Brasil em 2011, uma representou tudo o que poderia haver de pior, mais feio, mais trágico, desonesto e nojento na gestão pública dos problemas brasileiros: a tragédia causada pelas chuvas e suas consequências na região serrana do Rio de Janeiro, envolvendo sete municípios, entre eles os turísticos Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo. Foram mais de 900 mortos e 35 mil desabrigados. Há famílias que até hoje nunca encontraram os corpos de seus entes queridos.

Como sempre ocorre no Brasil, assim que o episódio trágico ocorreu, a cobertura foi plena, absoluta, geral e irrestrita. Transmitiam imagem até de dentro dos ouvidos das crianças resgatadas cobertas de lama. Manifestações de solidariedade de todo o país e até do mundo chegavam, eram bem vindas e emocionavam, comoviam e mobilizavam o país inteiro, diante da TV, como sempre. Um ano depois, no entanto, a tragédia parece apenas ter sido engessada, tornou-se seca como a lama quando a água evaporou, apenas por osmose, pelo efeito do tempo e da natureza. No entanto, dos milhões que foram destinados pelos órgãos públicos para remediar o impacto trágico na vida dos sobreviventes, pouco se sabe e, desse pouco, o que se sabe é muito ruim.

VIUVEZ – Um ano depois, milhares de desabrigados continuam com suas vidas praticamente em suspenso, no fio da navalha da inviabilidade cotidiana. Durante a semana, um desabrigado cuja mulher morreu, perdeu a casa inteira, com absolutamente tudo o que havia dentro e que até hoje lida com os traumas de um filho pequeno que foi arrastado por quatro quilômetros pela hecatombe de lama, água, correnteza, paus, pedras, restos de casa, corpos e animais, denunciava chorando a cegueira indefinível das autoridades burocráticas do município: para poder ser beneficiado com ajuda para a reconstrução da casa é preciso oficializar a viuvez. Para oficializar a viuvez, no entanto, é obrigatória a apresentação de todos os documentos do casamento, dos comprovantes da união e dos documentos pessoais da morta. Mas como, se tudo foi levado pela enxurrada? Há um ano ele trava esse diálogo de surdo com a burocracia imposta pelas autoridades que dizem que, sem isso, nada podem fazer para ajudá-lo nem aos seus filhos órfãos.

O que traduz, no entanto, a tragédia moral brasileira que norteia as relações do poder com a sociedade são as denúncias de desvio da quase totalidade dos recursos destinados pelos órgãos competentes para a reconstrução da cidade. Prefeitos, vereadores, secretários municiais, empresários da área de construção civil e que tais uniram-se em um complô não para devolver, o mais rápido possível, um pouco da dignidade perdida pelas pessoas que perderam suas famílias, seu trabalho, suas casas e seus objetos adquiridos ao longo de uma vida. Juntaram-se para desviar dinheiro. Prefeitos da região já foram cassados, uma CPI já foi criada na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro para investigar os culpados e o montante desviado.

BOLSOS – Na imprensa nacional, seja nos jornais ou na televisão, pouco se fala e mostra sobre o quão despedaçadas ainda estão as vidas dos sobreviventes, alguns vivendo até hoje como zumbis, duas ou três vezes vítimas. Primeiro, vítimas da falta de planejamento urbano de prefeituras populistas omissas que tudo permitem, até construir sobre cursos de rios e em cima de pedras. Depois, vítimas do imponderável que foi a precipitação pluviométrica recorde no período tão curto e numa região de solo tão específico. E, finalmente, o imperdoável do imperdoável: vítimas de gestores que desviam dinheiro público destinado para reconstruir as cidades e parte da vida das pessoas para cortar caminho rumo ao enriquecimento. Um dos prefeitos da região, meses após a tragédia, foi espairecer em Paris. Argumentou que estava estressado. A questão mais grave desse país é que as vítimas se estressam muito pouco. Já seus governantes, vivem fugindo para paraísos que o dinheiro alheio pode pagar para desestressar-se dessa prática tão cansativa que é pensar tanto em como encher mais rápido os próprios bolsos.

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 01 de janeiro de 2012, no jornal A Tarde, Salvador/BA;maluzes@gmail.com

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