PALOCCI, A CHANTAGEM ANTI-GAY E O DIABO

Em termos diretos, houve uma chantagem à qual a presidente Dilma cedeu já na primeira rodada. A bancada evangélica da Câmara dos Deputados e os conservadores que têm arrepios só em ouvir falar em homossexualidade viram na fragilidade de Palocci uma oportunidade de enxadrista para dar um xeque-mate na presidente: ou ela recuaria na distribuição do kit anti-homofobia nas escolas brasileiras, aprovado e recomendado pela Unesco, ou a tropa de choque evangélica iria para cima de Palocci, ameaçando-a com CPI, fritura, desmoralização e tudo o mais que fosse estratégia política de ataque necessária para derrubá-lo, empurrado que já está (por si mesmo).

 
Publicação original 30/05/2011 09:48

Embora a semana tenha começado com todos os indicadores telejornalísticos apontando para Pimenta Neves como o personagem da semana, no máximo dividindo a cena, entre os mais politizados e os defensores da causa ambiental, com a aprovação do novo Código Florestal na Câmara Federal, na primeira derrota política de Dilma Roussef, eis que as estripulias financeiras do ministro chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, deram uma rasteira na pauta noticiosa para além dos significados da multiplicação miraculosa do patrimônio e foi parar na causa dos gays, lésbicas e simpatizantes, assumindo o protagonismo no disse-me-disse da opinião pública durante a semana. Gente de boa índole e folha corrida exótica, para dizer o mínimo, como Antony Garotinho e Jair Bolsonaro, por exemplo, foram dormir na última quarta-feira serelepes de felicidade moral e jurando amor eterno e elogios sem fim à presidente Dilma.

Em termos diretos, houve uma chantagem à qual a presidente Dilma cedeu já na primeira rodada. A bancada evangélica da Câmara dos Deputados e os conservadores que têm arrepios só em ouvir falar em homossexualidade viram na fragilidade de Palocci uma oportunidade de enxadrista para dar um xeque-mate na presidente: ou ela recuaria na distribuição do kit anti-homofobia nas escolas brasileiras, aprovado e recomendado pela Unesco, ou a tropa de choque evangélica iria para cima de Palocci, ameaçando-a com CPI, fritura, desmoralização e tudo o mais que fosse estratégia política de ataque necessária para derrubá-lo, empurrado que já está (por si mesmo).

ROSINHA – Para quem já tinha se virado nos 30 durante a campanha eleitoral para provar que era religiosa e cristã desde criancinha e que prometera contrita jamais enviar para o Congresso qualquer projeto propondo alteração na legislação atual sobre o aborto, Dilma foi de uma previsibilidade moral mais que óbvia: disse sim imediatamente à tropa evangélica e suspendeu as cartilhas. Dilma bem tentou ceder à chantagem com um eufemismo, anunciando que a suspensão do kit devera-se ao fato de não ter gostado dos vídeos. Ah, tá. Mas Garotinho, sim, aquele mesmo,o marido de Rosinha, não deixou a presidente falsear a verdade. Em alto e bom som anunciou com empáfia quais tinham sido as regras do jogo. Segundo ele, ou era a suspensão ou os evangélicos iriam fazer de um tudo para dificultar a vida de Palocci no Governo, mobilizando mundos e fundos no plenário e nas comissões técnicas.

Para quem assistiu ao embate com a frieza necessária para analisar o comportamento dos players do episódio, a primeira obviedade que emerge dessa negociação estranhíssima entre Dilma e os evangélicos é o fato ver a presidente de uma República laica negociar de maneira tão rápida e barata uma ação integrante de uma política pública voltada para reduzir o preconceito e a violência contra os homossexuais por um punhado de proteção a um ministro que, em sua vida pública, nem tão longa assim, já foi pego de calças curtíssimas três vezes. E desta vez com os bolsos cheios de um dinheiro que parece ter vindo de forma tão fácil e rápida quanto misteriosa.

NEGOCIATAS – A chantagem, o arranjo, enquanto negócio, literalmente, foi lucrativo para os dois lados, embora nem a presidente nem os evangélicos tenham combinado com os homossexuais a sua inclusão na negociata. A pergunta que se deve fazer a Dilma é: o que ela ganha ao desistir de algo tão caro para a causa gay, assim, de bandeja, para agradar aos evangélicos? A proteção de seu pit bull político, mais uma vez ferido moralmente de morte, um homem que lhe é mais do que necessário, uma vez que atua, no governo, como uma espécie de amortecedor de espuma entre o que resta de direita e esquerda e entre o capital/mercado e os movimentos sociais que sempre apoiaram os governos do PT. E os evangélicos, o que ganham? Ora, uma moeda valiosíssima. A pregação evangélica sem a presença do diabo em seu discurso sofreria uma baixa de valor incalculável e ninguém é ingênuo para desconhecer que a homossexualidade é uma das faces mais robustas do demo na retórica religiosa.

Nesse imbróglio todo de Palocci e seus desdobramentos, quem saiu ganhando mesmo foi a ministra da Cultura, Ana de Hollanda, antes no centro de uma fritura ininterrupta. Diante dos estragos na Casa Civil, quem haveria agora de perder tempo pensando em fazer mudanças no MinC? Do outro lado, o da sociedade civil, por mais paradoxal que possa soar, quem sai ganhando em dignidade são os homossexuais: com antagonistas tão vulgares e capazes de negociatas e barganhas tão espúrias quem, sensato, há de negar que é um luxo estar do lado oposto?

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 29 de maio de 2011, no jornal A Tarde, Salvador/BA. maluzes@gmail.com

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