PRINCESA, CANGAÇO E UNANIMIDADE

 

Cordel Encantado (cujo último capítulo foi exibido na última sexta-feira), a novela global das seis que revolucionou a estética do gênero no horário e conquistou de braçadas a fidelidade de um público intergeracional e de todas as classes sociais, foi uma prova e tanto do quanto criatividade era algo raro de se ver no gênero nos últimos tempos.
Na história recente da teledramaturgia brasileira, conquistar e manter cada ponto nos índices de audiência exige das emissoras de televisão encantar continuadamente milhões de telespectadores que hoje têm trocentas opções ao alcance do controle remoto. Neste cenário, o horário das seis, mesmo na emissora líder de audiência, costuma ser mais do que ingrato para qualquer autor de telenovela. O horário, já tido e havido, desde sempre, como o menos nobre da grade que ensanduicha telejornais entre uma e outra novela, herda um público meso púbere da soap opera à brasileira que atende pelo nome de Malhação e pega um público novo meio indefinido, formado pelas pessoas que conseguem chegar da escola ou do trabalho a tempo de ver algumas cenas.

O público herdado de Malhação, em tese, tende, nesse horário, a migrar para a frente do computador ou de qualquer outra tela onde possa conversar on line com amigos da mesma idade. Nesse panorama, Cordel Encantado (cujo último capítulo foi exibido na última sexta-feira), a novela global das seis que revolucionou a estética do gênero no horário e conquistou de braçadas a fidelidade de um público intergeracional e de todas as classes sociais, foi uma prova e tanto do quanto criatividade era algo raro de se ver no gênero nos últimos tempos. O telespectador adorou de fazer brilhar o olho como luxo estético e dramatúrgico de um folhetim que parecia reunir coisas improváveis, elementos que em mãos erradas poderiam virar um panelada sem estilo, coerência e identidade.

BUFÕES – Ao juntar sobre a terra seca e árida do semi-árido do Nordeste elementos aparentemente inconciliáveis, como estética de cinema num horário em que o público não é tido como sofisticado, arquétipos seculares como rainhas e reis ameaçados pela maldade de vilões atormentados, cruéis ou bufões e cangaceiros justiceiros que só ‘relam’ a mão em quem faz o povo sofrer, as autoras Duca Rachid e Thelma Guedes deram um presente de bom gosto e inesperado ao público do horário e inscreveram seus nomes definitivamente na história da telenovela brasileira, a mais rica, a mais cara e a mais sofisticada do mundo.

A beleza plástica, cenográfica e estética do tipo da vista em Cordel Encantado era coisa rara na televisão quando se falava em telenovela. A trama lançou mão de um tipo de linguagem e rebuscamento de imagens raramente dadas aos (mais)exigentes telespectadores de minisséries exibidas em poucos capítulos e invadindo a madrugada. É impossível ver Cordel e não ver nela o que havia de melhor das minisséries da emissora adaptadas da obra ímpar de Ariano Suassuna, do talento preciosista e perfeccionista de Luís Fernando Carvalho, do humor e da leveza dos produtos do Núcleo Guel Arraes. E tudo isso embalado sob a forma de novela, e das seis, a mais comum das traduções para o produto para as massas a quem supostamente se pode dar algo nem tão sofisticado assim.

FEIA – O fato é que, enquanto a eterna menina dos olhos da Rede Globo, o novelão das nove, briga com a novelinha das sete para definir perante o público quem criou primeiro ou melhor o papel da heroína feia, pobre, íntegra e rejeitada pelo filho alpinista social e estudante de medicina (Kássia Kiss, na novela das 19h, de Walcyr Carrasco, e Lília Cabral, na das 21h, de Aguinaldo Silva), o telespectador apostava todas as fichas mesmo era no produto azarão, o das seis.

Na trama, tudo parecia irretocável, dos diálogos bem humorados à trilha sonora irretocável, do guarda-roupa dos cangaceiros aos nomes inspiradíssimos e impagáveis dos personagens, como Zóio Furado e a Rainha Mãinha. Sem falar na originalidade de, contrariando a tradição realista da telenovela brasileira, encenar uma fábula com todos os arquétipos dos contos de fadas e associar dois reinos fictícios, um europeu, Seráfia, e um sertanejo, Brogodó, palavra que em si parece grudar como visgo no repertório de qualquer telespectador. Tinha de tudo: amor, romantismo, humor, misticismo, cultura popular e um elenco afinado como há muito não se via. Havia tipos para todos os gostos do consumidor de folhetim: padre, profeta, cangaceiro fazendo as vezes de Lampião e seu bando, prefeito desonesto, marido traidor, mulher encalhada, delegado covarde e um vilão insano. Para os telespectadores agora órfãos, Cordel só tem um defeito: não oferecer uma versão disponível em DVD na seção de vídeos das livrarias.

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 25 de setembro de 2011, no jornal A Tarde, Salvador/BA. maluzes@gmail.com

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