Que melhor idade é esta que mata de susto?

Levando-se em conta os investimentos feitos pela viúva de Jango para supostamente continuar bela, há que se perguntar: envelhecer é viver entrando e saindo de clínicas de estética para adquirir traços de zumbis e sair por aí matando o mundo de susto?

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O que era para ser uma série de reportagens políticas caras à memória do passado recente do Brasil, a exposição, no Palácio do Planalto, dos restos mortais exumados do presidente João Goulart, cassado pela ditadura militar em 1964, com a presença das principais autoridades do país para prestar-lhes as honras nunca manifestadas em função da morte de Jango no exílio, adquiriu, nas emissoras de TV na noite de 14 deste mês, um tom de assombro para aqueles que não temem dar nome às coisas com medo do malho do politicamente correto. O que aconteceu com a ex-primeira-dama Maria Tereza Goulart, considerada, nas décadas de 60 e 70, uma das mulheres mais lindas e bem vestidas do Brasil, um arremedo de Jackie Kennedy tupiniquim?

Sim, claro, dona Maria Tereza envelheceu. E muito, afinal há 50 anos somente se contado o período decorrido desde que o marido foi expulso do poder. Mas envelhecer, ter rugas, mudar os traços, perder a beleza, a jovialidade, tudo isso é natural, fenômenos que fazem parte da vida de todo e qualquer ser humano. Mas o que se viu nas imagens de dona Maria Tereza Goulart, idade presumida de 74 anos, foi outra coisa que não envelhecimento. Aquilo tudo presente em seu rosto não é mero efeito do tempo. É resultado da intervenção humana, coisa feita em consultório e que, aliás, e inclusive, não custa nada barato. Daí causar muita estranheza e susto o fato de alguém ser capaz de pagar para ficar daquele jeito.

Ao lado da presidente Dilma Rousseff e emocionada diante do esquife com os restos mortais do marido, dona Maria Tereza, ao ter seu rosto exibido em close diante das câmeras, fazia José Sarney, em termos comparativos dos efeitos do tempo, parecer um Caio Castro de meia idade, tamanha a concentração de deformações estéticas compradas pela viúva de Jango nas últimas décadas.

Como narra o escritor argentino Jorge Luis Borges no conto O Aleph, o tempo é simultâneo, mas a linguagem não é, de modo que qualquer modo de narrar as feições e a imagem de dona Maria Tereza nos telejornais brasileiros é praticamente impossível – registros recuperáveis a qualquer googleada. Quem o fizer verá que, mais do que nunca, a tese de que a velhice deve ser chamada e considerada como a melhor idade é algo ainda não assimilado pelas mulheres com algum dinheiro no bolso, já a partir do momento que começam a cruzar a quarta década de vida. Estar na melhor idade é matar as pessoas de susto com trocentas cirurgias plásticas, muitos mililitros de silicone e dezenas de aplicação de botox e outros ox?

O que se viu no rosto de dona Maria Tereza em suas entrevistas era uma mistura, que deu completamente errada, dos traços da face de Steve Tyler, o roqueiro doidão do Aerosmith, contornados por uma cabeleira a la Cauby Peixoto e um jeitinho meso choroso de Dona Bela, a da Escolinha do Professor Raimundo. Tudo isso associado a um bocão copiado da Rita Lee de saias dos palcos, Serguei. Para arrematar, associou a um paletozinho slim branco a uma calça também branca e mais justa que a justiça divina que parecia ter saído do armário de Ney Matogrosso (diga-se de passagem, fica ótima nele, mas nela… nem tanto). A partir de quando ficou combinado que envelhecer bem é renunciar à dignidade fisiológica? Para as mulheres minimamente endinheiradas, viver os anos que a ciência e os recursos da saúde significa renunciar de tal modo aos efeitos do tempo? Levando-se em conta os investimentos feitos pela viúva de Jango para supostamente continuar bela, há que se perguntar: envelhecer é viver entrando e saindo de clínicas de estética para adquirir traços de zumbis e sair por aí matando o mundo de susto?

* Malu Fontes é jornalista e professora de Jornalismo da Ufba
Enviado pela autora, publicação origianl em Correio 24 Horas
Post no Iraraense em 26-11-2013 12h14m

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