REDES E RUAS

Está na hora de a velha TV repensar seus conceitos sobre o significado das práticas e ações políticas do lado de cá da tela. Está aí uma geração que parece ter aprendido a transitar entre as redes e as ruas sem passar pelo canal informativo representado por uma televisão que sempre tem uma velha opinião formada sobre tudo.

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As marchas e os protestos estão na ordem do dia em diversos países do mundo, do Oriente Médio aos quintais brasileiros, mesmo que, entre si, guardem diferenças motivacionais e de escala e etmologia abissais. Antes, muito antes, que o telejornalismo internacional corresse com suas câmeras para mostrar ao mundo o povo revolvendo-se nas ruas contra as décadas de ditadura no Egito e na Tunísia, por exemplo, no início deste ano, outra esfera midiática, as redes sociais, como o Twitter e o Facebook, e dispositivos móveis como os smartphones e os tablets, já haviam se tornado os protagonistas da chamada Primavera Árabe.

Protestos de pessoas nas ruas, longe de serem tímidos ou tranquilos, também foram registrados nas redes sociais na Espanha, um dos primeiros países da Europa cuja população esperneou contra a crise econômica e o consequente desemprego. Como aconteceu no mundo Árabe, na Grécia e viria a acontecer depois nos tumultos nas ruas de Londres, os manifestantes espanhóis utilizaram toda a potencialidade das redes sociais para amplificar os ecos das queixas contra o poder instituído ou o estado de coisas que contestavam. As estratégias de repercussão nas redes não se equivalem aos métodos correntes de uso dos meios de comunicação convencionais, como se dá, por exemplo, com os movimentos sociais que lançam mão de assessorias de imprensa e envios de releases para as redações da imprensa tradicional para divulgar suas causas e reivindicações.

O tipo de ampliação que as redes sociais causam nas vozes dos movimentos sociais e acabam por convocar a mídia tradicional é de um tipo ainda difícil de diagnosticar por parte de uma geração que se formou analisando o mundo a partir do que diziam os meios de comunicação. A circulação das informações e imagens se dá de modo anárquico, disperso, não hierarquizado, sem um epicentro publicizador de dados e de modo incontrolável, para desespero por parte dos poderosos a quem o movimento incomoda, sejam eles os ditadores egípcios ou os democráticos componentes do parlamento inglês.

WOODSTOCK – O ano de 2011 tem sido pródigo em eventos desta natureza. O evento bombado da vez, com todos esses contornos, é o “Occupy Wall Street”, uma espécie de Woodstock da segunda década dos anos 2000, só que geograficamente fincado no coração financeiro dos Estados Unidos, Wall Street, em Nova York, e publicizado (e potencializado) pelas redes sociais, blogs e todos os dispositivos a serviço da mobilidade e da informação em rede. Já são milhares de pessoas envolvidas, de diferentes nichos ideológicos e de mobilização, tendo em comum apenas (como se fosse pouco) a vontade de cuspir contra o sistema financeiro dos Estados Unidos, a quem é atribuída a responsabilidade pela escala estratosférica da crise que desde 2008 vem ameaçando a estabilidade econômica do país mais poderoso do mundo.

Somente após as redes sociais já terem se tornado o mural de registro e convocação das manifestações e protestos que, em poucos dias, já saíram de Nova York e chegaram a outras cidades dos Estados Unidos, como San Francisco, Boston e até Washington, é que as emissoras de TV e a imprensa se deram conta do tamanho do imbróglio. Vale dizer que enquanto o tipo de repercussão do “Occupy” nas redes sociais se dá sob toda a sorte de diversidade de registros, nos telejornais do mundo, e nos brasileiros não tem sido diferente, aos manifestantes sempre é colada uma espécie de aura que os enquadra muito mais como web hippies, maconheiros pós-tudo, anarquistas sem bandeiras e porra-loucas maníacos por tecnologia do que como cidadãos contra um modelo econômico que empobreceu milhões de pessoas e saiu ileso, com os bolsos abarrotados de dinheiro. Para entender melhor quem são as pessoas contra quem os manifestantes do “Occupy Wall Street” vomitam, basta ver o documentário Inside Jobs, uma espécie de “tudo o que você queria saber sobre a crise da economia dos Estados Unidos e não tinha a quem perguntar”.

TOCA RAUL – O fato é que, com a potencialidade de amplificação das redes sociais, a imprensa convencional, torcendo o nariz ou com câmeras sorridentes, está, sim, sendo obrigada, como se diz na Bahia, a correr atrás do prejuízo. Um outro aspecto que tem deixado o telejornalismo tonto, mais do que a imprensa escrita, pela escassez maior de possibilidades e estratégias de aprofundamento permitidos pelo modelo de produção do telejornalismo, é a indisfarçável falta de arejamento que a TV tem para abordar, no Século XXI, os significados de ideologia e política. Quando a manifestação é contra um ditador há três décadas, no Egito ou na Líbia, é um movimento político e todo santo âncora de telejornal concorda com isso.

No entanto, se são jovens londrinos barbarizando contra estabelecimentos comerciais para arrancar de lá produtos de consumo nada para matar a fome, pois não têm fome nem estão submetidos a uma ditadura política, aí, então, claro que não há nada a ver com política. Claro, todos concordam que se trata de vandalismo puro e simples, o que leva o telespectador do mundo jamais contestar o desejo manifesto do Primeiro Ministro inglês: controlar o acesso às redes sociais para impedir a organização de manifestações dos garotos-problema. Milhares de manifestantes com tablets e smarthphones nas mãos acampados em Wall Street? Ora, não passam de hippies anarquistas moderninhos que confundem militância política com cliques na web. Está na hora de a velha TV repensar seus conceitos sobre o significado das práticas e ações políticas do lado de cá da tela. Está aí uma geração que parece ter aprendido a transitar entre as redes e as ruas sem passar pelo canal informativo representado por uma televisão que sempre tem uma velha opinião formada sobre tudo. Sim, “Toca Raul” pode ser uma ação política. Por que não? Depende de contra quem se grita.

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 16 de outubro de 2011, no jornal A Tarde, Salvador/BA.maluzes@gmail.com

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