SOMOS QUASE OS MESMOS E VIVEMOS COMO OS ANCESTRAIS

No entanto, o poder da ciência é tão real quanto mítico e basta um dar de ombros da natureza, através de uma placa tectônica que sustenta uma das nações mais ricas e tecnológicas do mundo, o Japão, para ver o mundo civilizado comportando-se com o mesmo terror que deve ter sido experimentado pelos ancestrais diante dos dilúvios bíblicos creditados à ira divina.

 

Publicação original em 21/03/2011 13:43

As notícias que chegam diariamente via televisão, jornais e internet sobre o admirável mundo novo da ciência e da tecnologia embalam o sonho de que a civilização, sobretudo a que habita os países mais ricos do mundo, estão prestes a habitar uma civilização que controlará a natureza graças aos mecanismos sofisticados de uma revolução científica sem precedentes que são anunciados todos os dias. No entanto, o poder da ciência é tão real quanto mítico e basta um dar de ombros da natureza, através de uma placa tectônica que sustenta uma das nações mais ricas e tecnológicas do mundo, o Japão, para ver o mundo civilizado comportando-se com o mesmo terror que deve ter sido experimentado pelos ancestrais diante dos dilúvios bíblicos creditados à ira divina.

O Japão, a nação que até um par de dias atrás era a segunda mais rica do mundo e acabou de descer um degrau, empurrada pela China, assombra o mundo há uma semana com uma catástrofe de consequências jamais vistas e cuja fórmula tem como ingredientes básicos os quatro elementos essenciais da natureza: água, terra, fogo e ar. O país amanheceu rico, orgulhoso de ser não apenas a terceira economia do mundo, mas o de ser o grande exportador de tecnologia de ponta, super bem sucedido no uso da energia nuclear, com quase 60 usinas nucleares em funcionamento, além de ser o mais bem preparado do mundo para lidar com terremotos. O Japão que anoiteceu foi um outro país, com parte de seu território destroçado, com vastas regiões devastadas, cidades transformadas em ondas gigantescas de lama e entulho formadas por casas destruídas flutuantes, carros, barcos, pontes, árvores.

PASTORES – As dimensões e as consequências do terremoto-maremoto-tsunami no Japão, seguidos de grandes incêndios, vazamento de radiação, desabastecimento, fome, neve, regiões isoladas fizeram com que, pela primeira vez, a palavra apocalipse fosse pronunciada e reproduzida na televisão por grandes líderes da economia européia e não por pastores desses que vendem um lote no céu aos desesperados que buscam na fé os últimos estertores para continuarem vivendo. Tóquio, que no instante seguinte à tragédia apenas assistia a tudo chocada, por estar a cerca de 300 quilômetros dos pontos mais atingidos, ao quarto dia parecia uma cidade fantasma que em pouco ou nada lembrava a agitação humana permeada por incessantes neons dos anúncios luminosos.

Na cobertura feita pela imprensa brasileira, o aspecto que mais chamava a atenção dos jornalistas, o nível de calma e tranquilidade do povo japonês diante da calamidade, foi, ao longo da semana, se transformando em assombro, tamanha era a calma, descrita por diferentes jornalistas, do povo perante a lentidão do governo em adotar providências mais imediatas quanto a abastecimento de comida e evacuação. Enquanto os japoneses se calavam, o mundo gritava que a situação era grave e assustadora pelos riscos de contaminação nuclear. Os estrangeiros fugiam para os aeroportos mais próximos, onde aviões dos países ricos esperavam seus cidadãos para resgatá-los de riscos. Jatos que voavam de Londres para Tóquio com 300 passageiros, passaram a semana voando com menos de 20 pessoas e retornando lotados de gente que se cria embarcando numa arca de Noé contemporânea. O governo japonês pedindo a todos que ficassem calmos, que não havia motivos para alarme, responsabilizando os estrangeiros por espalhar sentimento de pânico. Os japoneses quietos, com fome, frio, sem luz, imobilizados, esperando as próximas orientações, literalmente, do imperador. Parte da imprensa ocidental atribui esse comportamento da população ao controle e à sonegação das informações reais da gravidade dos riscos por parte do governo japonês. Há quem diga, no entanto, que o auto-controle japonês é exatamente o traço que lhe permitiu historicamente reagir tão bem às tragédias das quais já foi vítima.

LOBÃO – Como, para o jornalismo, a tragédia em si, onde quer que ela aconteça, não é mais importante do que suas consequências para o país dos veículos que escrevem sobre ela, no Brasil as duas notas dissonantes da comoção causada pela tragédia japonesa vieram pela boca de dois ministros de Estado. O primeiro foi o do Trabalho, Carlos Lupi, que, quando questionado sobre o impacto da catástrofe japonesa na economia brasileira não titubeou: a médio prazo o Brasil sai ganhando, pois o Japão vai precisar ser reconstruído e temos muito a exportar para os japoneses. O segundo foi Edison Lobão, o ministro das Minas e Energias, questionado sobre os riscos da ainda incipiente produção de energia nuclear no Brasil, garantiu que aqui jamais aconteceria um risco de radiação semelhante ao que assusta o Japão. Não, Lobão não usou como argumento de sua tese o fato de o Brasil ser um país sem risco de abalos sísmicos. Foi claro e contundente: as usinas nucleares brasileiras são muito mais seguras do que as do Japão. E quem há de negar?

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 20 de março de 2011, no jornal A Tarde, Salvador/BA. maluzes@gmail.com

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