Soy loco por ti, Rubem

Além de ser obrigatoriamente louco para se tornar escritor é necessário ser peremptoriamente desajustado para compartir da insânia de outra realidade.

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Publicação Original em 12/03/2012 09:55
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Pouca gente sabe mas eu vivi em Itaguaí. Para maior surpresa ainda no século XIX. Não apenas vivi como fui recolhido à Casa Verde do Dr. Simão Bacamarte, um dos primeiros hóspedes daquela Casa de Orates*. Até hoje me pergunto se de lá deveria ter saído.

Minha relação com loucura, entretanto é anterior a esse período. Durante a minha infância/adolescência em Irará meu comparte nas desventuras pelo agreste era um primo, 20 anos mais velho, de passado pouco convencional. Passara boa parte da juventude trancado entre o Sanatório São Paulo e o manicômio Ana Nery, e os relatos das visitas que minha vó fez a ele durante o período eram mais fascinantes que os gibis da Marvel que lotavam minhas gavetas.

Perambulávamos por todo canto e a despeito do conhecimento que tinha sobre sua condição clínica – vivia a base de remédios e não podia beber – era o familiar que achava mais parecido comigo. Tinha alguns tiques e hábitos estranhos – acordar antes do sol raiar era o mais incompreensível para mim – porém nada muito anormal. Ficava um pouco mais agitado em alguns períodos, especialmente quando estava próxima a data de ir à capital buscar dinheiro da pensão e remédios.

Os surtos que deixavam minhas tias em polvorosa se resumiam a gastar o dinheiro com mulheres e um ou outro pileque que ele se permitia vez ou outra – a combinação com álcool o deixava, por vezes, transtornado. Tal influência eu carrego até hoje, fosse motivo de internação não sairia do Instituto Juliano Moreira.

Por isso não me surpreendi quando fui recolhido pelo Alienista. Por isso me senti tão à vontade em Macondo – era quase um Buendía -, por isso trabalhei numa repartição pública com o Palhares e aprendi as canalhices da vida, dividi uma garrafa de vodka com Henry Chinaski e por isso entrei pra Confraria dos Espadas. Esses desajustes, essa insânia não patológica, é condição sine qua non para criar esses universos. A imaginação não é nada sem a loucura e apenas lunáticos como Rubem Fonseca** podem arquitetar esses mundos com arestas irregulares e sólidas como um sonho juvenil.

Além de ser obrigatoriamente louco para se tornar escritor é necessário ser peremptoriamente desajustado para compartir da insânia de outra realidade.

Pois se alguém possui perfeito equilíbrio mental e moral além de todas as qualidades que se enxerga como ideal de lucidez… Trata-se de um perfeito mentecapto como o Simão Bacamarte.
E não há loucura maior do que se declarar são.

*Referência ao Conto “O Alienista” de Machado De Assis

**Rubem Fonseca declara que “escrever é uma forma socialmente aceita de loucura” ao receber o prêmio literário Casino da Povoa / Correntes d´Escrita pelo romance “Bufo e Spallanzani”, o escritor fez uma longa – e divertida – intervenção em resposta a uma provocação: “A escrita é um risco total”. ( VEJA VÍDEO AQUI! )

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