TV E MONOPÓLIO DA MORBIDEZ

O desejo de consumir o mórbido que justifica motoristas pararem seus carros para ver um morto é exatamente do mesmo tipo daquele sentido pelo telespectador que vai garantir a audiência dos programas que exploram as tragédias. Como disse Ayrton Senna, é típico da natureza do homem e seu desejo ambíguo de chocar-se e fascinar-se com a dor e o sangue alheios. Não, a curiosidade mórbida pela vida extinta ou extinguindo-se não é monopólio da TV.
Começo de tarde em Salvador. Na tela da TV, ágil como um urubu eletrônico programado, um helicóptero da TV Record ronda, aproxima-se, sobrevoa, plaina, durante minutos que parecem eternos, sobre um corpo masculino morto, esfacelado sob o sol no asfalto de uma rodovia, após um acidente de trânsito recém-ocorrido. No estúdio, o apresentador Zé Eduardo, o Bocão, narra a tragédia ao mesmo tempo em que faz as vezes de diretor de imagem, pedindo para a câmera ir para lá, para cá, pedindo para granular a imagem aqui ou acolá. Estendido no solo, visto de cima, sob a perspectiva do olhar de gavião eletronicamente potencializado das câmeras de TV atrepadas no helicóptero, um motociclista morto, mutilado, num nível tal de desconfiguração corporal, decorrente do porte do acidente, que equivalia a cenas de filmes B de terror. Manchas vermelhas e brancas espalhadas em raios que o apresentador dizia equivaler a 30 metros. Não era ketchup.

LONA – O fato: um motociclista desequilibrara-se, caíra do veículo e, em seguida, fora atropelado, segundo a emissora, por um, dois ou mais caminhões, que seguiram viagem sem parar, sem prestar socorro. A vítima, a imprensa identificaria depois como sendo um jovem de apenas 19 anos que, no instante do acidente, dirigia-se no sentido Simões Filho-Salvador para encontrar a mulher, que lhe telefonara convidando-o para uma surpresa: acabara de descobrir que estava grávida. Enfim, uma história com todos os contornos de um drama capaz de mobilizar os telejornais populares à exaustão. No entanto, embora em meio a esse cenário macabro, dois elementos chamavam atenção para além do corpo: a insistência com que o repórter e apresentador reclamavam da presença de curiosos e o fato de praticamente todos esses ‘curiosos’ não se contentarem em ver a cena a olho nu, pois empunhavam também um telefone celular gravando a cena.

Imediatamente após o acidente, formou-se um engarrafamento monstruoso na BR-324, nos dois sentidos, pois enquanto o tráfego ficara interrompido na pista do sentido do acidente, do outro, os veículos reduziam a velocidade praticamente a zero para fazer o óbvio em contextos desta natureza: para que motoristas e passageiros de automóveis pequenos e de ônibus cheios de passageiros olhassem corpo, o que prolongaria ainda mais o cenário mórbido no local. O serviço de remoção de corpos do Instituto Médico Legal, como não dispõe da precisão alada dos helicóptero da TV, levaria horas para chegar no local. Somente cerca de uma hora depois, a primeira providência era dada para diminuir o impacto da imagem: uma lona de plástico preto fora colocada sobre o corpo pela equipe de socorro médico da rodovia.

MORTE AO VIVO – Na noite anterior, uma segunda-feira, a TV Cultura reprisara uma entrevista histórica com Ayrton Senna, realizada pelo programa Roda Viva há mais de 20 anos, em 1986, quando o piloto havia vencido a sua primeira corrida de Fórmula 1. Em um dos trechos da entrevista, o então sóbrio repórter de TV, Marcelo Rezende, pergunta a Senna sobre como ele se sente diante do resultado de uma pesquisa da época que dizia que o público de Fórmula 1 via como um dos principais atrativos mobilizadores de uma corrida a possibilidade de ver de perto um acidente grave, inclusive com desfecho fatal.

A fala de Senna caíria como uma luva para explicar o comportamento público que incomodava, no episódio narrado, as reclamações do apresentador Zé Eduardo sobre a insistente e incômoda curiosidade do público diante do corpo morto na rodovia. Claro que o mesmo interesse que o caso despertava para o gavião eletrônico televisivo que lhe sobrevoava era compartilhado pela população ao redor da cena. E com a popularização dos celulares com câmeras, cada indivíduo que parava para filmar a vítima do acidente mimetizava um pouco o que vê os telejornais fazendo dia a dia: ao seu modo, estão capturando imagens trágicas para saírem por aí narrando à sua maneira o que viram e registraram. E suprema ironia trágica: a morte espetacular de Senna se deu ao vivo, diante das câmaras, com transmissão planetária e está capturada para sempre em imagens em movimento, inapagáveis.

COFRINHO – Ou seja, a natureza mórbida dos curiosos que, para os profissionais de TV atrapalham o serviço de socorro, da Polícia ou de remoção tem exatamente a mesma explicação e a mesma origem das razões que levam o helicóptero da emissora a sobrevoar como gavião o alvo no solo. A própria TV, inclusive, só investe a esse ponto na captura desse tipo de imagem porque sabe da existência dessa atração e curiosidade mórbida do público. O programa que reclama da curiosidade popular diante de um crime ou cadáver em via pública, acaso teria a audiência que tem não fosse esse fascínio popular que move as pessoas e irrita a TV por atrapalhar a captura das imagens por helicóptero?

O desejo de consumir o mórbido que justifica motoristas pararem seus carros para ver um morto é exatamente do mesmo tipo daquele sentido pelo telespectador que vai garantir a audiência dos programas que exploram as tragédias. Como disse Ayrton Senna, é típico da natureza do homem e seu desejo ambíguo de chocar-se e fascinar-se com a dor e o sangue alheios. Não, a curiosidade mórbida pela vida extinta ou extinguindo-se não é monopólio da TV. Ao contrário, a TV alimenta-se da existência prévia dela para encher seu cofrinho. O helicóptero vai ter que lidar com esse detalhe incômodo da aglomeração popular nos cenários das tragédias.

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 09 de outubro de 2011, no jornal A Tarde, Salvador/BA. maluzes@gmail.com

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