Caymmi e a Bahia zapeada

A música de Caymmi, contemplativa, não ruidosa, melódica, serena, ritmitcamente rica, é uma intrusa à essa baianidade exclusivamente axezeira.

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Postagem original em 20-03-2014 09h07m

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Toda vez que eu vejo a versão de Nana Caymmi para João Valentão, do seu pai Dorival – especificamente a apresentação no DVD Maricotinha de Bethânia – dá uma vontade danada de suar pelos olhos.

Então eu me lembro que é centenário do nascimento de Caymmi e o carnaval da Bahia – melhor do mundo prxs negxs do axé – não dedicou nem uma linha, verso, prosa ou batucada ao lendário compositor baiano.

Essas datas bem que poderiam passar batidas se fôssemos um povo que valorizasse cotidianamente as raízes de nossa cultura, se soubéssemos cultivar a beleza que transcende das nossas origens; se não enxergássemos o louvor aos mestres e obras do passado como atavismo distópico, como excrecência em tempos de Lepo Lepo e Bilu Bilu.

Outrossim – margeando um pouco o cenário político, pois não quero aprofundar-me nessas águas turvas – preocupa-me mais ainda essa retomada do ethos #baianidadeaxéópaiójogaamãoproalto como força motriz que nos redimirá do caos e da incivilidade que alastrou-se pela Cidade da Bahia.

Esse balangandã nós já conhecemos, não adianta vir com alfazema da boticário, pois se hoje perdemos parte da docilidade de nossa alma telúrica, devemos muito a essa política cultural escrota e imediatista, que serve de trampolim para Gustavo Lima e similares trajados de jeans à vácuo, enquanto nega um reles palco para homenagear um dos maiores artistas brasileiros do século XX.

Pensei comigo: Certamente estão planejando uma grande homenagem no aniversário da cidade, data ideal, Caymmi soteropolitano, obá de Xangô, homem que versou nossa cidade pelo mundo, talvez um palco na eternizada Itapuã ou quem sabe no Dique, ladeado pelos orixás que lhe agraciaram com talento e grandeza.

Os palcos estarão lá, não para celebrar a obra de Caymmi. Estarão lá para impulsionar a carreira solo do careca cabeludo que acha bloco de corda essencial pro carnaval, a carreira do bombado que tá namorando a ex-vocalista do grupo de axé que também estará lá com a nova vocalista que é namorada do outro bombado que também está saindo em carreira solo.

Entre uma carreira e outra, uma zapeada no Ego vale mais que ler um livro de Jorge Amado ou admirar uma pintura/gravura de Carybé. Não posso negar, contudo, que há muita coerência em alijar a obra de Caymmi das comemorações e homenagens a Salvador.

A música de Caymmi, contemplativa, não ruidosa, melódica, serena, ritmitcamente rica, é uma intrusa à essa baianidade exclusivamente axezeira que nos redimirá, que nos conduzirá aos trilhos austeros do progresso, da retomada econômica e sustentável – nos pequenos intervalos em que não tivermos nos acotovelando espremindo entre tapumes de camarotes atrás de um trio, claro.

Essa alegria histérica – forçada, imposta, inventada – é o que mais cansa e incomoda nessa Bahia contemporânea. Não deixa espaço pra gente refletir. É da reflexão que nasce a arte imemorial.

João Valentão levou nove anos para ser composta. Levará nove séculos e não será esquecida. Caymmi também não, e nem precisa ser celebrado para sabermos de sua importância. Mas Salvador precisava homenageá-lo para não esquecer quem foi/é: O sonho mais lindo de João Valentão, de Caymmi e meu.

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