Samba, mercenário!

Celebramos uma data nacional como se fosse nossa, enquanto paulistas e gaúchos comemoram rebeliões separatistas que deram errado com orgulho federativo. Totalmente coerente. A Bahia transcende o Brasil. Não dá pra separar, é um pedaço que não se arranca.

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Publicado originalmente em 16/07/2012 10:31
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Consta que Stendhal confessou haver escrito um de seus livros para cem leitores. Parece pouco, talvez o seja, mas é mais que suficiente para compelir o autor a empreender o melhor de si, engendrar as ideias com o máximo de clareza e os argumentos com a força da persuasão. O próprio Stendhal previa que só teria algum reconhecimento após sua morte, o que de fato aconteceu. Era um homem a frente do seu tempo.

Eu nada tenho a ver com Stendhal, a não ser o fato de sermos aquarianos do primeiro decanato – o que não significa bulhufas, pois não creio em astrologia. Compartilho, no entanto, do compromisso com meus poucos e estimados leitores. Este encontro semanal certamente é mais proveitoso a mim que a vocês, que decerto se enfadonham com meu parlapatório acerca de tudo – e do nada.

Para mim uma oportunidade singular de expor minha pregação exegeta do cotidiano. O que vejo, sinto, presencio… Sim, vocês são a turba enfastiada enquanto vocifero no púlpito.

Portanto não deixaria de externar minhas impressões das últimas duas semanas. Foram dias solenes, em comemoração ao glorioso 2 de julho. Seguindo o protocolo, tudo começa com o desfile festivo [pouco interessante, sobretudo em ano de eleição], tem sequência com a VOLTA DA CABOCLA – essa sim, uma manifestação popular autêntica, mistura de galhofa e procissão cívica – uma das expressões mais originais do idioma baiano, e encerra-se com a LAVAGEM DE LABATUT a única festa de largo da Bahia por motivos históricos e não sagrado-profanos. Apesar do sagrado e do profano estarem lá CHANCELANDO a galhardia.

Esta tríade festiva arremata de forma definitiva o pathos da baianidade. Primeiro porque comemoramos a Independência da Bahia (?) que não é, e nunca foi, independente do Brasil. Na verdade celebramos o fato da verdadeira independência ter se conflagrado aqui, e não naquele grito muxoxo em beira de riacho e sem tiro de mosquetão. Acho que a história do Brasil começa errada por aí, quando um acordo permite que se conquiste autonomia sem trocar de comando. P%$@ D. João, eu preferia que um aventureiro tivesse lançado mão! Mas na guerra daqui tivemos mártires, heróis do povo, ajuda sobrenatural e casos insólitos. Uma mitologia mais rica, que dá autenticidade ao conflito mesmo sem rendição dos derrotados e com uma fuga patética dos portugueses.

Celebramos uma data nacional como se fosse nossa, enquanto paulistas e gaúchos comemoram rebeliões separatistas que deram errado com orgulho federativo. Totalmente coerente. A Bahia transcende o Brasil. Não dá pra separar, é um pedaço que não se arranca.

A volta da cabocla é um êxtase atemporal, onde as imagens do caboclo e da cabocla são carregadas de volta a Lapinha pelo povo, com direito a bloco, fanfarra, numa desordem jubilosa que nos é bastante peculiar. Não há aquela formalidade do desfile oficial, nem os séquitos que acompanham os próceres da província. E tem um significado metafórico poderoso. Quem nunca ouviu “espere a VOLTA DA CABOCLA” não sabe a importância de comedir as ações antes de retornar ao panteão 2 de Julho.

E a festa só poderia ser encerrada com uma grande festa de largo. E em Pirajá, a mais importante das batalhas, a que mudou o rumo do conflito. Como morador daquele arrabalde, conheço bem o significado do festejo para o bairro. Sim, o termo BATALHA ainda é justificado nos tempos atuais – no sentido denotativo mesmo – o que não esmorece a alegria da festividade, incorporada pelos elementos da terra como o samba do recôncavo, o desfile dos encourados de Pedrão, as barraquinhas vendendo batidas e quitutes não recomendados pela vigilância sanitária, as meninas brejeiras e seus trajes sumários. Tudo isso em homenagem a um mercenário francês que morreu na Bahia.

E ressuscita todo ano pra sambar com o povo que libertou.

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