Vaquejando com o Velho Justino

Texto e imagens por Emerson Nogueira Pinho

Vaqueiro Véi

“Vaqueiro véi” 

Os ventos sopraram-me à Água Fria. Bem recebido, passei na majestosa Igreja de São João Batista para agradecer. Já se passava um ano da partida do velho Januário, por um tempo perdi a faculdade.

Numa despretensiosa tarde ao atravessar de uma rua avistei uma nova inspiração. Não tive aveichamento e cheguei logo a perguntar:

– Boa tarde Véi, tudo bem?

– Tudo, tu é fio de quem?

Após algumas réplicas e tréplicas selei uma nova amizade. Sentado reclamando da sua visão comecei a enxergar Seu Justino, velho sertanejo. Logo fez questão de dizer que era “Vaqueiro véi”. Foi ai que entrei numa nova peleja. A convite do velho fui chamado a vaquejar, não poderia fugir de uma boa pega no mato.

Nasceu em 19 de maio de 1931. De origem simples passou a infância na Faz. Tapera, hoje conhecida como Alto Alegre, aos oito anos começou a vaquejar . Justino Carvalho de Araujo é filho de Gregório Carvalho de Araujo ( nascido em 1903) e Matilde Alves da Fonseca, entre seus irmãos:  Floro, Armando, Elvira, Onorata, Euzebia e Andreza. Cresceram trabalhando duro na roça.

Magestosa igreja de Agua Fria

Majestosa Igreja de Água Fria

Casou-se por três vezes, a primeira em 1953 foi com Maria Alves de Araújo com quem  teve três filhos, porém o destino levou a companheira aos 19 anos de idade, havia adoecido. Em 1957 casou-se novamente, com Safira Ferreira dos Santos.  Foram nove anos juntos, tiveram oito filhos, mas a vida lhe daria mais um golpe. A mesma morreu em 1966 após complicações no parto de um filho. Seu Justino não desistiu, precisava criar seus filhos. Em 1967 casou-se com Jovita Alves de Araújo, que era irmã da sua primeira esposa. Segundo seu Justino, ele precisava de alguém que cuidasse bem dos seus filhos. Com ela teve dez e, Graças a Deus, esta até hoje. Brinquei com o velho em tom descontraído: “O senhor era danadinho né…” Dona Jovita sorriu e demos uma boa gargalhada. Neste momento eles relembraram de Dr. Deraldo Portela, pois em um dos partos, Dona Jovita necessitou de acompanhamento, pois eram gêmeos. Já acompanhada pelo Dr. Deraldo, seu Justino continuava aflito e preocupado, foi quando o Dr. sorrindo disse: “Vá simbora homi e só venha no sábado buscar minha comadre”. E assim o fez, satisfeito e ainda ganhando um novo compadre.

De lucidez avulsada deixo-me a vontade, aos poucos ia me adaptando na montaria e assim passei a conhecer grandes histórias do velho vaqueiro.

Já em galope compassado fui debuiando o passado e tentando montar mais um “Tabuleiro”. Cavei a sua raiz, me disse ter conhecido pouco seus avós, na parte paterna seu avô se chamava Veridiano Carvalho de Araujo (falecido em 1914) e sua avó era Tertuliana (falecida em 1944). Seu avô da parte materna era Antonio Alves Fonseca (falecido 1929) e sua avó chamava-se Martiliana.

A prosa estava boa, lembrou-se também das brincadeiras de infância. Perguntei se chegou a frequentar a escola e ele disse que não, apenas aprendeu o ABC na fazenda de Amaro Badu na Lagoa Grande. Conta que ele era um grande fazendeiro da época e que era filho do conhecido Chico Badu. Neste momento viajamos no tempo, contou-me que Chico Badu foi um homem de passado marcante na região, o mesmo antes da construção da Estrada de Ferro (1888) já era um grande tropeiro do sertão. Nesta época ( final do século XIX) houve uma grande seca que assolou toda região, um tempo de sofrimento e fome em que Chico Badu desbrava regiões em busca de alimentos. Em Tropas de Burros iam para Bomfim e outros lugares bem distantes. Bem mais tarde já na década de 1950, o velho tropeiro também ficou conhecido por uma história inusitada: o mesmo nasceu em 31 de dezembro de 1855 e morreu no mesmo dia que completou 100 anos de idade em 31 de dezembro de 1955.

Aproveitei o embalo e lembrei-me de Seu Aleixo da Fonte Nova. Foi uma alegria só:

– “Rapaz seu Aleixo tá vivo ainda? Tinha uma vontade de vê-lo mais não tenho como…” Contei que estive visitando o velho em fevereiro desse ano (2015) e que o mesmo já estava acamado, mais tive o prazer de conhecê-lo. O seu filho até me mostrou a sua identidade datada de 15 de dezembro de 1906, porém afirmou que esse registro não estava certo e que Seu Aleixo dizia que era mais velho. Logo seu Justino me disse que diziam na época que ele era de 1898 e que era filho de negros que foram escravos. Lembrou que Seu Aleixo foi Carreiro de Zidoro Carneiro, e que era homem muito trabalhador, disse também que gostava de jogo: “era ligeiro se vacilasse adeus”.  Por instantes relembrou a infância em fatos relacionados ao velho e comentou:

– “ Eu  e Abade era dois cão quando menino. Cansei de perturbar Seu Aleixo quando ele vinha com o Carro de Boi , agente espalhava galho de árvore na estrada, cavava buracos. Eita que seu Aleixo virava bicho, até um dia que agente se deu mal. Seu Aleixo já vinha manjando, certo dia botou um rei na ponta da vara de ferrão e seguiu a, gente que tava escondido no mato, e quando o velho passou picou a vara na gente; oxe foi o dia que agente perturbou, nunca mais..”

Fomos revivendo fatos e Seu Justino foi aboiando o passado. Ora ou outra esquecia e lembrava momentos. Cortando a Caatinga e desbravando o Tabuleiro chegamos a Estrada de Ferro. Foi ai que conheci fatos novos que me deixaram feliz em conhecer acontecimentos tão importantes de nossa história.

Seu Justino disse que a Estrada de Ferro cortou Água Fria em 1888, e que a mesma passaria  próximo à velha Igreja de Água Fria, mais um fazendeiro influente de nome Chico Reis pisou o pé e disse que perto da Igreja a linha não passava, e não teve jeito. Na época muitos temiam as consequências, principalmente o aparecimento de “pestes” (doenças). Conta que da forma que estava projetada  a linha seguia do Sapé diretamente para o Catana e com o impasse teria quer ser desviada. Foi ai que entrou a figura do influente Cazuza Miranda que, segundo ele,  interessando em crescer a Barra onde tinha propriedades conseguiu desviar a linha e com isso a Barra cresceu. Contou que Cazuza Miranda fez armazéns para guardar Fumo, cultura rica na época. O mesmo morreu em 1935 em Serrinha. No dia foi fretado uma Classe de Trem que trouxe o corpo ate Água Fria e que, ao chegar à Barra, seguiu de Carro de Boi até Irará onde foi sepultado. Lembrou também que a nova Estação foi construída depois de mais de 40 anos em 1943 no tempo de Getúlio Vargas.

Estação Ferroviaria de Agua Fria

Estação Ferroviária de Água Fria

Em certo momento da prosa contou-me de um acidente ocorrido com alguns conterrâneos que embarcaram escondidos em Serrinha para não pagar a passagem e que ao chegar à Barra um deles pulou errado e se deu mal: “foi resto encontrado até no Sapé”.

Conheceu vários lugares de Trem. Relembrou de passagens pelas Estações de Salvador, Alagoinhas, Aramarí, Ouricanguinhas, Iraí, Água Fria, Lamarão, Serrinha, Santa Luz, Itiúba, Queimada, Jacobina, Senhor do Bonfim, Juazeiro. Disse ter conhecido Garimpeiros antigos da linha como Epifânio da Vajota e Neném de Camilo. O velho acredita que a Estrada deve ter demorado uns 70 a 80 anos para ser concluída (Salvador à Juazeiro). Nesse momento aproveitei e embarquei em seus vagões para imaginar como um projeto tão audacioso de Engenharia Inglesa cortou em sol ardente nosso chão em busca de desenvolvimento. Um Brasil do século XIX vivendo ainda escravidão e prestes a conhecer a sua proclamação. Uma grande obra desbravada coletivamente por muitos sertanejos, imigrantes, nativos… Possivelmente o suor e o braço forte dos Escravos têm uma grande marca no início dessa história e suas ramificações estão ao longo do seu trajeto dando origens a muitas comunidades.

ruinas do castelo de Zidoro Carneiro na fonte Nova

Ruínas do Castelo de Zidoro Carneiro

Com o esquentar do sol a nossa vaquejada ia ganhando força e assim no transcorrer dos dias ia me agraciando com relatos interessantes. Lembrou do influente fazendeiro da região de Brotas, José Alves Barreto e seus irmãos Satú de Brotas, Laurindo, Elísio. Conta que José Alves tinha muitas terras e que trabalhou para ele. Foi neste momento em que falava da região de Brotas que me contou uma historia hilária, acontecida em 1946 dentro do Cemitério de Brotas. Disse que em certo dia ia ser enterrado um senhor conhecido com “Seu Véio” e que tinha muita gente inclusive ele ainda moço. Disse-me: “rapaz foi uma briga de mais de cem pessoas dentro do Cemitério”. Em um determinado momento do enterro quando o defunto estava descendo os sete palmos, teve alguém que jogou um pau dentro da cova. Foi uma desgraça… Um cassete dos infernos. Teve de tudo, até “mulher ficou nua dentro do Cemitério, e não foi uma só não viu”. A briga se arrastou até a velha Baraúna a mais antiga da localidade. Disse que dessa briga teve gente que nunca mais apareceu, como o filho de André Coveiro de Brotas. Teve gente que  apareceu depois de dois anos, como Martim Galo e Adolfo. Estes Seu Elísio Santana mandou prender assim que soube que estavam ai. Ao contar essa historia fiquei lembrando que nas Festas do Milagre de Brotas às vezes rola uma briga para ser contada no dia seguinte e daí até desconfiei que isso é coisa antiga . Rss.

O Velho lembrou-se de velhos amigos da lida como Pociano Carpiteiro, Abadi, Mário, Zé da Vigia, Valdivino, Lúcio Bode, Zidorio Marinho, João de Pio capanga de Benzinho Campos. Falou do amigo Melquiades Rodrigues que na década de 40 gostava de corrida de cavalo e que também corria Vaquejada, numa delas caiu e quase morreu. Com o amigo Eugênio foi até Entre Rios vaquejando gado, não tinha lugar. Sua primeira sela foi comprada em 1946 na mão de um primo. Muitas vezes foi a cavalo a Feira de Santana no Campo do Gado, o local hoje é onde está o  Fórum Felinto Bastos. Disse que cansou de ir para Feira e outros lugares bem distantes. Recordou que certa vez ficaram nove dias fora de casa. Na época foi buscar gado em Tucano, lembra que passava no Paracatu hoje chamado de Pataíba seguia pela Manga (hoje Biritinga) e outros lugares. Já dormiu na Fazenda Bandarra que na época pertencia a Seu Pompílio Santana. Relatou que Amaro Medeiros tinha muitas propriedades e entre elas tinha mais de cinco léguas de terra na região de Tucano onde é hoje o conhecido Jôrro. Lembrou-se do povo do Sertão principalmente os Tucanistas que faziam esse trajeto sempre para vender seus adereços na Feira de Irará aos sábados. Usavam a estrada velha do Cardoso para chegar a Irará. Seu Justino ainda contou que junto com seu Tio Manoel  vaquejou gado para a Fazenda do Pai de João Durval ( ex-governador)  na região de Feira de Santana. Era chão e muito sol, tinha que ter um bom cavalo e ter raça no olho porque a vida de vaqueiro é de muita luta.

Emerson no castelo

Emerson no Castelo

Em 1949 passou a morar na Faz. Brito, a luta continuava, disse já ter visto muita coisa no mato, lembra-se de animais como: Seriemas, Veados e outros. Uma vez estava em uma região do Paudarco  quando presenciou uma  cobra Cainana matar um boi em minutos. Em fevereiro 1952 perdeu um grande cavalo. Tava numa pega no tabuleiro “o boi tava encantado” e numa carreira bateu em um toco e só acordou no outro dia, o cavalo morreu. Perguntei se já tinha visto alguma visagem no mato. Contou-me que certa feita a Ferrovia Leste estava trocando os trilhos e os dormentes. Foi quando Sinval da Barra, Artur Leão e outros mandaram Seu Justino, Pociano, Tiburcio, Mamede pegar alguns dormentes e trilhos velhos que iam ser trocados. Disseram que já tinham conversado com o Chefe da Leste e que não tinha problema. Pegaram o Carro de Boi e foram à noite. Ao chegar ao local viram algo estranho e luminoso que acendia e apagava… Ficaram com medo sem saber o que era, até que um deles já tomando umas cachaças falou: “Rapaz agente não é homem não é? Vamo vê esse diabo o que é”. Assim que chegaram não viram nada de mais apenas os dormentes empilhados. Conta que se arrependeu, pois os “Garimpeiros da Leste” deixaram uma placa dizendo que era proibido. Não perderam a viagem, estava muito escuro e ao invés de pegarem o material velho que ia ser substituído, erraram e pegaram os novos. Foi uma consumição, pois eram objetos pesados e que não valeu a pena, pois no outro dia os Garimpeiros da Leste pegaram o rasto do Carro de Boi e ao invés deles seguirem o rastro para onde o Carro de Boi seguiu, eles resolveram olhar de onde o Carro de Boi veio e deram em cima. A sorte de Seu Justino foi que o Chefe da Leste que comandava o trecho entre Alagoinhas e Juazeiro era seu conhecido e que vivia pegando seus cavalos emprestados para ir ao Iraí resolver as coisas e com isso aliviou e deixou pra lá. Ainda disse: “Ah diabo, além de tudo nunca recebemos o pagamento desse frete infeliz”.

Ainda quando jovem na década de 40 lembra que ganhou o apelido de “Pisa Açúcar”. Na época já existia Jogo de Bicho e que Bráulio Miranda, Cecílio , Venâncio e outros comandavam uma Banca na Barra e que seu Justino virou bicheiro. Saia para fazer jogo na região e que demorava muito sendo o último a chegar. Os bicheiros ficavam retados esperando, pois queriam correr logo o jogo e ficavam dependendo de Seu Justino. Daí colocaram esse apelido.

avistei o velho justino

“avistei o velho justino”

Começamos a falar da Feira de Irará e durante a prosa seu Justino contou-me de uma confusão em 1952. Conta que num sábado estavam indo para feira os caminhões de Érico Estrela de Pataíba e o de Zé Ribeiro. Na época o Prefeito era Amaro Medeiros. A estrada estava péssima e quando chegaram numa ladeira perto da Caboronga, os veículos tiveram muita dificuldade pra subir, foi uma luta. Érico Estrela então esculhambou Amaro Medeiros dizendo que a culpa era dele que não zelava da estrada. Já mais tarde quando Érico Estrela estava no Mercado Municipal de Irará, vendendo seu feijão, chegam os Guardas para prendê-lo, pois Zé Ribeiro havia contado tudo a Amaro Medeiros então ele mandou prendê-lo. Foi para o Velho Quartel, mas seu Elísio Santana ao saber mandou solta-lo. Já era tarde e Zé Ribeiro e a turma costumavam tomar umas no Bar de Bráulio Miranda que era próximo a Praça. Foi quando Érico Estrela enfurecido entrou no Bar, bateu nas costas de Zé Ribeiro e disse: “é amigo muito obrigado”. Sem perder tempo mandou Zé Ribeiro ao chão. Foi um bafafá, Érico se mandou, e o desentendimento perdurou por algum tempo.

Lembrou-se da morte de Inácio na década de 50. Conta que ele estava junto com Agnaldo Maia na Rua do Fateiro (hoje calçadão). Disse que Inácio e Agnaldo Maia não eram brincadeira. Houve um desentendimento e esculacharam um Guarda de nome Gildivan e na ida pra casa ainda gozaram com a cara dele. Foi quando passavam na frente do Quartel que receberam o tiro. Conta que Agnaldo Maia conseguiu correr e se livrou, mais estava na mira também.

Fomos estreitando nossa recente amizade. Lembro que em um final de tarde ao me despedir, dei-lhe uma boa noite e até amanha. Respondeu-me: “se deitar para dormir e não pensar em coisa ruim vai lembrar-se de muita coisa boa”. Ao sair refletir à sugestão.

sentando na frente de casa

Sentado na frente de casa

Os dias iam passando e o sol esquentando, foi quando resolvi  falar sobre o tempo. Seu Justino falou que tá tudo mudando e que nunca imaginou vê a Lagoa Grande de Chico Badu completamente seca. Já viu muitas secas como a de 1946, 1950 e recentemente a de 2013. Viu também chuva que parecia não acabar mais. Relembrou que 1948 choveu pedra de gelo em Água Fria. Em 07 abril de 1960 estava em Salvador e que foi comprar a passagem de Trem  para voltar para Água Fria e que deu uma forte trovoada jamais vista por ele, foi muita pedra de gelo. O mesmo estava na Praça da Inglaterra e teve que se abrigar.

luiz gonzaga batendo triangulo para o negao dos 8 baixos - foto 6 - PARAGRAFO 26

Luiz Gonzaga batendo triângulo para Negrão dos 8 Baixo 

A “pega” estava cada vez melhor, lembrei-me do conhecido Negrão dos Oito Baixos. Perguntei se o conheceu e logo me disse que sim que ele era filho de Fideles Sanfoneiro da Fazenda Jacaré e que o Negrão fez muito Forró  em toda região. Lembrou que quando jovem  tinha Dança de Sala, Samba de Roda, Reisado, Baita de Feijão e outras. Lembrou-se de tocadores antigos como: Paixão Sanfoneiro, Pedro de Joana, Amantino, Rodolfo, Antonio Rodrigues e o filho Nego, Antonio Dó e Dórico Rocha. Disse: “naquele tempo tinha tocador de verdade”.

Inventei de perguntar de Política, fiquei sabendo que Seu Justino foi vereador de Água Fria por 16 anos.  Logo de entrada me disse:

– Meu fio “fui puxa saco”

Perguntei:

-Por que seu Justino?

 

-Ô, sofri com essa desgraça, toda dispensa com comida era lá em casa. Teve um dia que Delson Pinho sabendo de minha situação me chamou no canto e me disse: “Amigo Justino abre o olho, você tem que ficar mais esperto”.

2

“valeu boi!”

Seu Justino foi filiado por seu compadre Regi de Água Fria no MDB, teve dois mandatos de seis anos e um de quatro. Começou a relembrar fatos, foi ai que relatou que  1954 numa Eleição o pau quebrou dentro da Igreja da Barra. Lembra que inventaram de colocar uma urna no pé do Altar da Igreja. Estavam presentes no local Venâncio, Valdivino, Ismael e outros. Após uma discussão Teobaldo (Teteco) filho de Emídio Paudarco puxou um revolver e foi  “ uns Inferno”. Um quebra a quebra danado dentro da Igreja. A prosa ficou boa e o velho continuou a relembrar fatos marcantes da política como a morte de Teodoro Pinheiro em uma segunda-feira  trinta e um de julho de 1948. Disse que no dia estava em Santa Bárbara, quando chegou a noticia. Contaram que Teodoro Pinheiro estava na fazenda no Cariaca quando chegaram e pediram água. Levou sete tiros certeiros. Foi um alvoroço na época.

Carro de boi de Zidoro Carneiro

Carro de Boi de Zidoro Caneiro

E assim as lembranças foram aparecendo. O velho lembrou que certa feita houve uma seca que não ficou nada, o povo sofreu muito. Conta que viu muitas vezes o pessoal da fazenda Cágado do Quaresma passar com trouxas de couro pra lavar roupa no Catete. Era uma romaria. E foi nessa época que Seu Elísio Santana trabalhou e fez um Açude nos Cágados. Disse que após as chuvas voltarem houve uma inauguração e nesse dia estavam os grupos políticos  de Zezé de Aníbal e o grupo rival de Benzinho Campos. De repente começaram a discutir por causa do Açude. Começou uma briga desgraçada, mas a confusão teve um desfecho engraçado próprio da Política. Depois da briga os ricos opositores foram para o Chalé de Zezé de Aníbal e fizeram as pazes fazendo uma grande farra e os pobres que se acabaram na briga pra defender os interesses de seus grupos ficaram com a cara no chão sem participar do melhor da festa. O velho lembra que a política sempre foi assim, os inimigos se juntam quando a conveniência. Lembra que Emidio Paudarco era sogro de Amaro Medeiros mais eram inimigos políticos assim com Zé Panela e seu irmão Cassiano.

Relembrou que antes de 1962, Água Fria, Santanopolis, Pedrão, Ouricangas eram governadas por Irará.  Sua primeira eleição foi em 1950, disse que votou “encabestrado”. Lembrou-se de nomes antigos e recentes de pessoas conhecidas e influentes por toda nossa região como: Cazuza Miranda, Elísio Santana, Pedro Piroca Brejão, Benzinho Campos, Zé Panela, Clodoaldo Campos, João Punga , Pedrinho Carvalho de Pataíba, Teodoro Pinheiro, Amaro Medeiros,  Seu Dudu de Água Fria, Zezé de Aníbal pai de Juquinha que foi prefeito de Santanópolis, Zé Valverde de Pedrão, Osorão pai de Deraldo Bacelar, Emídio do Paudarco pai de Astério,  Nôca, Lourinho, Dega, Teobaldo (Teteco), Valdivino (Vavá – foi sogro de João Brasileiro), Balbino Leão do Catana que também foi delegado, Zé Ribeiro, Pedro Ribeiro, Regi de Água Fria, Pedro Cunha, Landulfo da Barra e outros.

Foram muitas lembranças. Lembrou-se que em 1950 um jovem chamado  Francisco Bastos que era de Senhor do Bonfim, estudante de advocacia estava na região na época e  teve uma áspera discussão com Dr. Jessé por causa da eleição entre Paulo Campos e Amaro Medeiros. O jovem foi embora e doze anos depois voltou a Água Fria e durante um comício na Praça da Igreja subiu no palanque e disse: “Que não acreditava no que estava vendo, pois conheceu os Pungas sendo trabalhadores de Amaro e que agora queriam governar Água Fria”. Foi muita confusão, os Pungas partiram para cima. Francisco Bastos puxou um revolver (Parabelo) e mandou vim. Aos poucos foram acalmando os ânimos e tudo ficou bem. Seu Justino conta que a eleição de seu Dudu pegou fogo, pois havia uma forte oposição. Lembra que durante uma “marra de fumo na roça” seu amigo Pociano Carpinteiro começou a discutir fervorosamente com Pedro Furtuoso que apoiava Amaro Medeiros. Pedro Furtuoso não se conformava e dizia: “ Quero vê se o povo vai votar em Dudu”. Pociano respondeu que Dudu estava forte e ganharia a eleição.

Outro ferrenho opositor a Seu Dudu na época foi Emídio Paudarco que disse que se Seu Dudu ganhasse ele nunca mais pisaria os pés em Água Fria, na época chegou até por circunstância política pela primeira vez juntar-se ao genro. A eleição chegou e Seu Dudu foi vitorioso mostrando sua força politica. Seu Justino conta que a raiva de Emídio Paudarco foi tanta que o mesmo cumpriu a promessa, sem pisar os pés no chão voltou a Água Fria dois meses depois para ser enterrado em 10 de dezembro de 1962. O velho conta que os Pungas eram bons de briga e duros na queda.

O velho pegou ritmo e foi relembrando coisa. Disse que em Água Fria já teve eleição que Landufo da Farmácia da Barra foi candidato a Vereador e teve mais votos que o Prefeito Adilson, pois conseguiram impugnar a candidatura de Balbino Leão faltando poucos dias para a eleição.

Seu Justino diz que sua militância não foi fácil. Eram muitas dificuldades. Conta que trabalhou muito dando socorro ao povo. A saúde era precária, subia e descia carregando gente pra Feira de Santana, Serrinha, Irará, Salvador, Alagoinhas. Conseguiu ser vereador com muito trabalho. Relembrou que passou momentos tristes e difíceis na estrada, principalmente quando ao transportar pacientes ocorria morte. Conta que no seu carro algumas mulheres morreram de parto antes de chegar ao destino. Às vezes ele mesmo durante o trajeto tinha que providenciar o caixão, colocar o defunto e trazer em sua Brasília de volta para Água Fria.

Continuamos a vaquejar. Foi quando comecei a sentir sede, já havia trilhado muito chão e não tinha como acompanhar mais o velho Justino. O aprendiz de Vaqueiro  estava cansado e então resolveu parar e beber uma boa “Água Fria”.

Já descansado, senti felicidade em ter a oportunidade de contar um pouco da história de mais uma figura simples do nosso cotidiano. Acredito que os registros serão importantes.

Agradeci a Deus por entrar em uma vaquejada tão grande e sair sem nenhum arranhão. Havia aprendido bater uma boa “esteira” para o Velho Vaqueiro. Que Deus continue a abençoa-lo como faz sempre com o bom homem do sertão. Só tenho agradecer e dizer ao velho Justino que “Valeeeu o Boi”…

Emerson Nogueira Pinho. (Mercinho), 25/09/2015.   Reeditado 25/05/2018  

Agradecimento: Aos companheiros de trabalho do Município de Água Fria.

4 comentários

  1. Caro Emerson estou emocionada ,conheço seu Justino de sempre sou de Agua Fria da região de Pedra Furada depois da Lagoa Grande ,vivo em Irara a 22 anos mas continuo muito ligada a minhas origens! Sua prosa cm seu Justino me levou a minha infância difícil mas feliz !👏👏👏👏👏👏

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