A caça e o caçador

Por Emerson Nogueira Pinho

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Cadáver de raposa abatida – Foto: Emerson Nogueira Pinho

Cansada e ferida, a raposa conseguiu chegar aos pés de uma velha Jaqueira. Ensanguentada não resistiu. O relato e a imagem me fizeram por instantes refletir mais uma vez sobre a natureza humana.

Anos atrás me deparei com uma cena parecida. Em um domingo de lazer na Zona Rural observei uma movimentação nos fundos de um bar. Ouvia risos e relatos sobre a caçada da madrugada. Pendurada em uma árvore tiravam o seu couro. Cheguei perto e vi pela primeira vez em minha vida uma raposa. Um detalhe chamou-me atenção, era fêmea e os peitos estavam “mamados”, sinal que havia deixado filhotes no ninho. Fiquei triste e pensativo, não tive a coragem de dizer no momento o que pensava.

Ainda adolescente tive outra experiência marcante, fui convidado por um amigo a acompanhar sua caçada no pasto de Caribé. Acompanhados de um cachorro Perdigueiro procurávamos Codornas. Logo encontramos uma Peneira planando no ar. Um tiro certeiro, e a queda. Corremos para pegar, havia até ali alegria no “dito acerto”. Ao pegar a ave, percebemos que continuava viva. O amigo então disse: “Deixa comigo”. Pegou a sua cabeça e torceu o pescoço. Foi minha primeira e última caçada. A imagem até hoje me remete a deprimente cena.

O costume é ancestral e vem ao longo dos anos criando ramas na sociedade. Antes dava até para entender, pois era pela sobrevivência, mas hoje não. É preocupante, pois em dias atuais e de vasto esclarecimento sobre os problemas ambientais a prática é continuada.

Tatu, Raposa, Paca, Teiú, Preá, Coelho, Camaleão, Jiboia, Gaviões, Seriemas, Micos, Tamanduá, Gato do Mato e até Veados e Jacarés são alvos preferidos. Todos esses animais ainda são encontrados em nossa Comarca e região ( Irará, Ouriçangas, Água fria, Santanópolis, Pedrão, Coração de Maria, Aramari e outros). Ouvi relato que até Onça Parda já foi vista nestas bandas.

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“Tirim” o lindo pássaro azul – Foto: Emerson Nogueira Pinho

Outro dia ao sair para fotografar fui surpreendido com um lindo pássaro azul. Já não acreditava poder encontrar algo tão raro e belo em nossa vegetação. Fiquei escondido na tentativa de registrar a ave em meio à vegetação, até que acertei. Era um pássaro conhecido por “Tirim”, segundo informação de um agricultor que me acompanhava. “Aqui ainda existe bicho do mato”, disse ele enquanto fazia outros relatos importantes. Isto me fez lembrar do desmatamento em curso, certamente a razão para o sumiço de muitas espécies da nossa fauna.

Os órgãos ambientais deveriam olhar também para nossa região. Temos também restingas de Mata Atlântica, Caatinga, Tabuleiros e outras vegetações. É necessário urgentemente fazer um trabalho de conscientização e educação para nossa população. Ex: campanhas educativas, mobilizações, parcerias. Nossa fauna precisa de ajuda. Sabemos que não é um trabalho fácil, os mais velhos costumam dizer: “É melhor lidar com os bichos do que com gente”.

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Fauna na região é diversa – Foto: Emerson Nogueira Pinho

Torço muito para que o despertamento coletivo possa transformar essa realidade, e que aprendamos a observar melhor a vida, principalmente aprender um pouco mais com os animais, o sentido de amar.

Emerson Nogueira Pinho (Mercinho)

Irará, 10/03/2017

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