Sonhos de um tocador

Por Emerson Nogueira

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Adenilson Coutinho – “Black” – Foto: Emerson Nogueira

Em uma manhã de sábado, eu fazia compras na Feira de Irará. Em certo momento ouvir alguns batuques perto da Santa. Resolvi dá uma “espiada”. Lá estava uma Equipe da Saúde na “Campanha Outubro Rosa”. O som era conhecido, Black e a turma do Purificayê em mais uma apresentação.

Parei alguns instantes para apreciar o amigo, em seu balanço criativo, e desta vez dando algumas paradinhas para interpretar o Plantão do Jornal Nacional, em referências a importância da campanha contra o câncer de mama. As pessoas iam parando para observar o suingue do negão e sua garotada.

Neste momento passou um filme na minha cabeça, apenas ouvindo e já não prestando tanto atenção na cena, parei para pensar na vida de um cara que merecia um grande aplauso.

Tentarei nessas linhas contar um pouco da vida de Adenilson Batista Coutinho, conhecido como Black. Uma linda história de amor à música, a qual mostra os valores de um cidadão que ao plantar uma semente nunca desistiu de regá-la. Busca fazer o bem, faz da arte uma grande lição.

Nasceu em Irará em 13 de março de1976. Na época sua mãe morava no Beco do Quartel. É filho de Maria Lucia Alves Barbosa e Rubem Coutinho. Ainda criança foi morar com seu o pai na cidade de Pedrão. Não demorou muito na cidade vizinha. Retornou a Irará, foi quando o levaram para morar em Salvador. Passou a ser criado pela Srª Maria Guadalupe sua segunda mãe.

Black Com Michael Jackson
Black, de óculo à esquerda, na gravação do clipe de “They don’t care about us”, com Michael Jackson – Acervo Pessoal

As vivências na capital lhe ensinaram muito, cresceu na periferia do Barrio San Martin, na Rua Fonte do Capim. Ainda criança juntou um grupo de amigos para tocar com latas na rua. Nessa época conheceu Neginho do Samba, um dos fundadores do Grupo Olodum. O mesmo viu suas habilidades percussivas e então lhe convidou para ensaiar no Olodum. Em 1993 passou a fazer parte do grupo, lá conheceu muita gente, fez muitas amizades.

Foram muitas apresentações, recorda principalmente de grandes Carnavais em Salvador, foram temas inesquecíveis: Tesouro de Tutancâmon, Tropicalismo, Girassol, Filhos do Mar, Roma Negra.

Em 1997 teve uma grande oportunidade. Participou das gravações de parte do clipe da musica “They Don’t Care About Us”, do Astro Michael Jackson no Pelourinho. Na gravação Black foi agraciado ao aparecer nas imagens, um momento único e muito especial.

Nos anos seguintes saiu do Olodum, passou a trabalhar nas ruas da Capital como mascate, camelo, aprendeu também a ser sapateiro.  Continuou na música, tocando em grupos de samba, pagode, axé, seresta.

Acesse também :

Black prepara Purificayê para Lavagem e pensa no futuro

Purificayê faz desfile da Consciência Negra

Conversas e Canções #18 – 18.09.2013 – Adenilson Coutinho – Black do Purificayê

Em 2008 retornou a sua cidade natal. Para viver, passou a ajudar sua mãe na feira e a trabalhar como sapateiro nas ruas. Porém Black tinha um sonho, a música fazia parte de sua vida e então foi à luta. Resolveu fundar uma banda de percussão para trabalhar com crianças e jovens dando-lhe o nome de “Banda Purificayê”.

Já conhecido, seu som passou a ser frequente nos finais de tarde durante os ensaios da garotada. Em meios às dificuldades tudo ia bem e Black começava dar corpo a seu projeto Social. Não foi fácil, havia, da parte de muitos, certa desconfiança. A aparência e jeito extrovertido não contagiavam a todos, alguns o descriminavam achando que suas intenções não eram claras.

O tempo foi passando e o som foi ficando cada vez mais conhecido. Passou a fazer apresentações nas festas populares da cidade, nas escolas, nas feiras, eventos diversos. Passou a ensinar a arte em Projetos Sociais do município.

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Black na sua UTI dos Sapatos –  Foto: Emerson Nogueira

Em meio a sua ascensão moral, continuava tendo vida muito simples e evidenciada pela pobreza a quem conhecia de perto. Sem casa, morando de aluguel lutava pela sobrevivência de sua família. Durante o dia ia para o calçadão com seu banquinho para engraxar e costurar sapatos. Deu a sua ferramenta de trabalho o nome de: “UTI DOS SAPATOS”. E assim, trabalhando e cumprimentando a todos, aos poucos foi ganhando simpatia.

Passei a ser seu amigo e admirador do seu trabalho, pois ali não era apenas “o bater dos tombos” era também “bater de consciência” em ver um jovem negro pobre fazendo as coisas acontecerem em meio a tantas dificuldades.

Black é um cara legal, quer ver crianças e jovens com oportunidades de serem pessoas de bem. Deseja continuar contribuindo. Para isso precisa melhorar sua estrutura com matérias didáticas, instrumentos, organizar uma sede para a Banda.

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Black ensina o batuque ao meninos do Purificayê – Foto Emerson Nogueira

Gostaria muito que essa historia tivesse oportunidade de ser contada em algum programa de TV. Assistindo alguns quadros, percebemos uma boa oportunidade para apresentar seu projeto de vida. Acho interessante a proposta de ajudar a realizar sonhos.

Confiamos primeiramente em Deus, pois é quem orquestra e quem nos dá força para acreditar. Talvez a história do nosso irmão Black não chegue lá, mas gostaríamos de tentar. Como seria bom ver a Purificayê na telinha da TV, purificando a alma dos que acreditam num mundo melhor.

E assim usando o tradicional cumprimento de Black, agradecemos.

“Êeeeeeeaaaaaaa”

Emerson Nogueira Pinho ( Mercinho)

17 /10 / 2015 ( sábado)

Portal Iraraense

Ouça gravação de entrevista de Black em programa de rádio

C&C – 18 – 18.09.2013 – ADENILSON COUTINHO – BLACK PURIFICAYÊ.mp3

 

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