O dia em que Chico do Banco “ganhou no Ourocap”

Leia sobre essa e outras histórias contadas ao Iraraense por Emerson Nogueira

 

chico do banco
Chico do Banco entre o então gerente Nivaldo Júnior (esq) e Omar Paes Coelho (dir) | Foto: Acervo BB/Irará

Era um dia agoniado de trabalho na agência do Banco do Brasil de Irará. De repente o telefone toca e quem atende logo chama: “Chico, telefone pra você!”.

De pronto, ao ouvir o chamado, num misto de curiosidade e surpresa, ele foi até o aparelho. Não era comum receber telefonemas em seu local de trabalho.

Chico era natural da região de Paulo Afonso, mas contava muitos anos de residência e trabalho em Irará. Não havia quem, com maior ou menor frequência na agência do Banco do Brasil da cidade, não o conhecesse.

Zuado por seus colegas como “Chico Doido”, ele tinha um jeito meio apressado de falar e fazer suas tarefas. Se apresentava como “contínuo”, respeitando o que talvez fosse a nomenclatura do seu registro, mas na prática se parecia com um “faz tudo” no banco. Fazia café, abria porta, fechava malotes…

Era tão dedicado à agência que até quando entrava em férias aparecia por lá. Ia para molhar o jardim ou ajustar qualquer coisa fora de ordem, na sua avaliação.

Sofreu um pouco com a automatização bancária. Tinha dificuldades para decorar procedimentos e aquele novo mundo dos computadores e caixas eletrônicos lhe representava um grande desafio.

Apesar de seus pesares, logo se notabilizou pelo atendimento aos mais idosos nos chamados “cashs”. Era uma agonia só. Organizar pessoas, ver quem eram os prioritários entre tantos prioritários, orientar e sugerir resolução de problemas dos idosos. Nos dias de pagamento de benefícios, Chico ficava literalmente pra lá e pra cá.

E foi no meio de um dia desses de agonia que o bendito telefone tocou a procura de Chico. Quando ele atendeu, teve uma grande surpresa.

Do outro da linha falava uma voz calma e pausada se identificando como alguém do Ourocap. Confirmou o nome, local de trabalho e número de matrícula profissional de Chico. Não tinha dúvidas, era ele mesmo. Só então, após as confirmações de praxe, foi dada a informação: “O Sr. foi sorteado e ganhou um carro 0km!”.

Chico deu um monte de pulos. Ficou eufórico demais com a notícia. Ainda no dia seguinte, mesmo o gerente da agência lhe afirmando do seu desconhecimento de tal contemplação, ele estava convicto na veracidade do prêmio anunciado via linha telefônica.

Pouco depois, um outro telefonema transformou a euforia em decepção. Esse segundo lhe revelou que tudo não passava de uma brincadeira. Dessa vez os autores da ligação se identificaram com suas verdadeiras identidades. Emerson Nogueira (Mersinho), Daniel Paes Coelho (Meu Boi) e Marcelo Cruz (Marcelo de Aniceto) eram os autores do trote.

Chico ficou piradíssimo com o trio de ex-colegas, que tinham trabalhado no banco como uma espécie de estagiário e guardavam lembranças e saudades das brincadeiras com Chico.

mersinho - marcilio - iraraense
Emerson Nogueira – “Mersinho”, colega que Chico chamava de “Nelsinho” | Foto: Marcílio Cerqueira/ Facebook de Emerson

Mersinho, a quem Chico chamava de “Nelsinho”, é quem nos conta as histórias. Ele relembra de um dia em que Chico esqueceu o malote e foi necessário providenciar outro carro para levar a encomenda para Salvador. Conta o dia em que Chico se atrapalhou no saque de um benefício e quis lhe culpar, antes do esclarecimento definitivo. E de quando sua companheira aparecia no banco.

“Era um show à parte. Ele tremia na base e quase sempre alguém atiçava uma brincadeira”, conta Emerson.

De tanto conviver com Chico, chegando a lhe substituir fazendo café em uma de suas férias, Emerson acabou por gravar o número da matrícula do colega e até hoje não esqueceu. Sempre, ao chegar ao banco, ele encostava em Chico e sussurrava o registro, digito por digito, no ouvido do amigo.

Chico então virava gritando: “Você me roubou, você sabe tudo meu, você e Daniel é duas desgraça”. E era sempre assim.

Emerson diz que no começo ficava chateado, porque Chico falava de boca alta, chamando-o de “ladrão”, mas depois pensava: “é Chico…”.  Ele conta que depois o amigo vinha de mansinho e lhe falava: “Não, Nelsinho você é gente boa, é gente boa”.

Ele lembra também das tardes em que Chico foleava cartas e correspondências antigas, enquanto “Meu Boi”, trabalhando na mesa ao lado, lhe perturbava. Recorda ainda que Jota era outro a “tirar o couro de Chico”.

Ainda de acordo com Emerson, Chico ia à forra nos dias de confraternização de final de ano. “Ele ‘tomava umas’ e aí virava sua metralhadora giratória para os desafetos que lhe abusavam o ano todo. Se soubesse algo da pessoa, jogava tudo no ventilador (risos)”.

Entre os funcionários do banco, daquela época, final dos anos 1990 e início dos 2000, Mersinho relata os nomes de: Pedro Nelson, Ruyter, Margarida, Jota, Bola (já de saída), Jaime, Carlão, Marcos, Ezequias, Dêgo, Amando, Balbina, Paulo Rebolcas, Daniel (Meu Boi), Marcelo de Aniceto, Orlando de Água Fria, Zé Umberto (Minho).

Segundo Mersinho, seu tempo no banco foi breve, mas o suficiente para fazer amizades com todos e com Chico também. Ele destaca que embora recorde tantas “travessuras” de Chico, o ex-colega tinha uma grande virtude. “Era homem direito, principalmente em relação a seu trabalho”, recorda o amigo.

Emerson lembra que Chico vivia “assim alegre” e guarda na memória um dos seus últimos encontros com Chico, no qual não deixou de fazer uma brincadeira já costumeira entre eles:

 “Eu sabia que ele tinha sido mordido por Barbeiro, e sempre falava: ‘Chico, Chico tu sabe que teu coração pode pifar qualquer hora viu’. Ele Me respondia: ‘Você quer que eu morra, né seu desgraçado? Você vai morrer primeiro. Rogério também me falava que eu ia morrer e quem foi foi ele’. Demos uma grande gargalhada, ele penteando o cabelo com aquela língua pra fora e soluçando de dar risada (risos)”.

Na última vez que Emerson o encontrou, Thais fazia uma selfie com Chico. O amigo lamenta não ter aproveitado a oportunidade para também tirar uma foto com antigo companheiro de jornada.

No dia 02 de agosto, quando chegava ao seu trabalho atual, Emerson foi surpreendido por uma senhora que lhe perguntava sobre a hora do velório. Já abalado, pela recente partida do amigo Waldeck, Emerson perguntou apreensivo “quem morreu?” e recebeu o triste informe do falecimento de seu amigo Chico.

E foi diante de suas lembranças que Mersinho, chamado por Chico de “Nelsinho”, resolveu compartilhar algumas de suas memórias com os iraraenses, registrando seus sinceros sentimentos e seu desejo de que Deus abençoe Chico onde ele estiver. Para Emerson, Chico levou consigo o carinho de todos e a sua eterna alegria.

“Obrigado Chico!”, finalizou “Nelsinho”.

*Escrito a partir de relato de Emerson Nogueira, com um pouquinho de imaginação na parte do chamado ao telefone.

**Atualizado em 29/08/2019

 

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